Quando um jovem senador negro se apresentou como candidato à presidência dos EUA, o mundo ficou espantado e, cauteloso, aguardou.
Quando esse senador foi indicado pelo seu partido, o Democrático, como o candidato à presidência, vencendo a branquíssima colega Hillary Clinton, mulher do ex-presidente Bill Clinton, o mundo, embora com algum cepticismo, perguntou-se se a América estaria a mudar.
Quando esse senador foi eleito, ganhando a corrida presidencial ao candidato republicano, um veterano da guerra do Vietname, quase todo o mundo suspirou de alívio. Quase todo o mundo pensou que a partir daí tudo seria diferente. Terminara o reinado dos republicanos, de triste memória de oito anos com George W. Bush.
Quase todo o mundo pensou assim, porque é fácil as pessoas tomarem como realidade aquilo que pode não passar de ilusão, principalmente se essa ilusão for muito desejada.
Quase todo o mundo pensou assim, mas nem todo.
Na verdade, se o destino de uma nação dependesse apenas da vontade de um homem, a vida seria diferente. Mas não é isso que acontece, para o melhor e para o pior. E quanto maior for o grau de interdependência do país no complexo processo de globalização, mais a vontade desse homem ficará condicionada a uma miríade de factores, alguns dos quais ele não pode controlar. Não bastam, pois, as intenções. É necessário ter a capacidade de gerir adequada e harmonicamente o conjunto de variáveis em jogo.
Alguns meses de governo Barack Obama mostraram que assim é.
Herdeiro de uma crise financeira desencadeada no seu país e rapidamente disseminada pelo resto do planeta, crise que não teve maiores e piores repercussões porque os governos das nações mais afectadas socorreram bancos, companhias de seguros e grandes empresas industriaias com o dinheiro dos contribuintes, Obama recebeu, ainda, como dote na tomada de posse, a guerra do Iraque, a guerra do Afeganistão, a hostilidade provocadora da Coreia do Norte, a teimosia nuclear do Irão, e, na América, o descalabro da saúde pública, o elevado índice de desemprego com tendência a crescer e uma recessão económica que começara, embora de forma encapsulada, bem antes do estouro provocado pela concessão maluca de crédito imobiliário.
Em pouco tempo a sua popularidade baixou para níveis que não seriam de esperar perante a esperançosa euforia que coroou a sua eleição em boa parte da Terra.
Acontece que em política não há milagres, nem em regimes ditatoriais, nem em democracias: existem, sim, circunstâncias, projectos, obstáculos, e acções. E no meio disto tudo êxitos e fracassos.
Os que esperaram muito e, principalmente, muito depressa de Obama, sentem-se frustrados. Apostaram alto e acham que perderam. Quase se consideram ludibriados. Não pensam que talvez os cálculos tenham sido mal feitos, talvez não hajam considerado todos os parâmetros, contagiados pela avassaladora onda de optimismo esfuziante que se difundiu por latitudes e longitudes.
Do ponto de vista doméstico, não contaram com a resistência e a contramarcha do partido Republicano que, embora não tendo a maioria no Congresso, possui força suficiente e ramificações poderosas para, em certa medida, tentar boicotar as acções do ainda inexperiente Barack Obama.
Também internamente, porventura supôs-se, mal, que Obama seria senhor de alguma caixa de mágicas que, no meio da conturbada crise nacional e internacional, lhe permitisse arrumar a casa a contento de todos. Carisma é uma coisa que não concede, necessária e automaticamente, eficácia e sucesso a quem o possui.
Quanto às relações internacionais, a quem esperava o fim imediato, ou quase, das guerras do Iraque e do Afeganistão, escapou que é fácil começar uma guerra, mas nem sempre é possível terminá-la quando se pretende. Não falando já dos activos, influentes e possantes lobbies das indústrias de material de guerra, há toda uma panóplia de decisões geoestratégicas, frágeis equilíbrios regionais, velhas alianças e aliados de ocasião, responsabilidades assumidas perante o país e perante o estrangeiro que é necessário ter em consideração.
A abertura ao diálogo com os países que o seu antecessor classificou como o "eixo do mal" é uma prova de boa vontade, mas nunca uma cedência nos pontos fundamentais.
É preciso não esquecer que a política externa dos EUA tem uma raiz estrutural imutável, seja o presidente preto ou branco, novo ou velho, homem ou mulher. Por exemplo, os tratados continuarão a ser bilaterais, nunca multilaterais. A assinatura dos grandes acordos internacionais dependerá sempre e tão-só do interesse directo que os EUA possam ter nisso, e não do interesse da comunidade internacional, a que os EUA, aliás, também pertencem. A hegemonia económica e militar dos EUA sobre o resto do mundo continuará a ser um objectivo prioritário e a base do sonho americano, com o corolário do policiamento do planeta segundo as suas próprias regras.
Posto isto, parece que o bom senso aconselha a encarar o governo Barack Obama como uma renovação da continuidade, pelo menos nos tempos mais próximos – se é que alguma vez poderá ou conseguirá ser outra coisa.
Quando esse senador foi indicado pelo seu partido, o Democrático, como o candidato à presidência, vencendo a branquíssima colega Hillary Clinton, mulher do ex-presidente Bill Clinton, o mundo, embora com algum cepticismo, perguntou-se se a América estaria a mudar.
Quando esse senador foi eleito, ganhando a corrida presidencial ao candidato republicano, um veterano da guerra do Vietname, quase todo o mundo suspirou de alívio. Quase todo o mundo pensou que a partir daí tudo seria diferente. Terminara o reinado dos republicanos, de triste memória de oito anos com George W. Bush.
Quase todo o mundo pensou assim, porque é fácil as pessoas tomarem como realidade aquilo que pode não passar de ilusão, principalmente se essa ilusão for muito desejada.
Quase todo o mundo pensou assim, mas nem todo.
Na verdade, se o destino de uma nação dependesse apenas da vontade de um homem, a vida seria diferente. Mas não é isso que acontece, para o melhor e para o pior. E quanto maior for o grau de interdependência do país no complexo processo de globalização, mais a vontade desse homem ficará condicionada a uma miríade de factores, alguns dos quais ele não pode controlar. Não bastam, pois, as intenções. É necessário ter a capacidade de gerir adequada e harmonicamente o conjunto de variáveis em jogo.
Alguns meses de governo Barack Obama mostraram que assim é.
Herdeiro de uma crise financeira desencadeada no seu país e rapidamente disseminada pelo resto do planeta, crise que não teve maiores e piores repercussões porque os governos das nações mais afectadas socorreram bancos, companhias de seguros e grandes empresas industriaias com o dinheiro dos contribuintes, Obama recebeu, ainda, como dote na tomada de posse, a guerra do Iraque, a guerra do Afeganistão, a hostilidade provocadora da Coreia do Norte, a teimosia nuclear do Irão, e, na América, o descalabro da saúde pública, o elevado índice de desemprego com tendência a crescer e uma recessão económica que começara, embora de forma encapsulada, bem antes do estouro provocado pela concessão maluca de crédito imobiliário.
Em pouco tempo a sua popularidade baixou para níveis que não seriam de esperar perante a esperançosa euforia que coroou a sua eleição em boa parte da Terra.
Acontece que em política não há milagres, nem em regimes ditatoriais, nem em democracias: existem, sim, circunstâncias, projectos, obstáculos, e acções. E no meio disto tudo êxitos e fracassos.
Os que esperaram muito e, principalmente, muito depressa de Obama, sentem-se frustrados. Apostaram alto e acham que perderam. Quase se consideram ludibriados. Não pensam que talvez os cálculos tenham sido mal feitos, talvez não hajam considerado todos os parâmetros, contagiados pela avassaladora onda de optimismo esfuziante que se difundiu por latitudes e longitudes.
Do ponto de vista doméstico, não contaram com a resistência e a contramarcha do partido Republicano que, embora não tendo a maioria no Congresso, possui força suficiente e ramificações poderosas para, em certa medida, tentar boicotar as acções do ainda inexperiente Barack Obama.
Também internamente, porventura supôs-se, mal, que Obama seria senhor de alguma caixa de mágicas que, no meio da conturbada crise nacional e internacional, lhe permitisse arrumar a casa a contento de todos. Carisma é uma coisa que não concede, necessária e automaticamente, eficácia e sucesso a quem o possui.
Quanto às relações internacionais, a quem esperava o fim imediato, ou quase, das guerras do Iraque e do Afeganistão, escapou que é fácil começar uma guerra, mas nem sempre é possível terminá-la quando se pretende. Não falando já dos activos, influentes e possantes lobbies das indústrias de material de guerra, há toda uma panóplia de decisões geoestratégicas, frágeis equilíbrios regionais, velhas alianças e aliados de ocasião, responsabilidades assumidas perante o país e perante o estrangeiro que é necessário ter em consideração.
A abertura ao diálogo com os países que o seu antecessor classificou como o "eixo do mal" é uma prova de boa vontade, mas nunca uma cedência nos pontos fundamentais.
É preciso não esquecer que a política externa dos EUA tem uma raiz estrutural imutável, seja o presidente preto ou branco, novo ou velho, homem ou mulher. Por exemplo, os tratados continuarão a ser bilaterais, nunca multilaterais. A assinatura dos grandes acordos internacionais dependerá sempre e tão-só do interesse directo que os EUA possam ter nisso, e não do interesse da comunidade internacional, a que os EUA, aliás, também pertencem. A hegemonia económica e militar dos EUA sobre o resto do mundo continuará a ser um objectivo prioritário e a base do sonho americano, com o corolário do policiamento do planeta segundo as suas próprias regras.
Posto isto, parece que o bom senso aconselha a encarar o governo Barack Obama como uma renovação da continuidade, pelo menos nos tempos mais próximos – se é que alguma vez poderá ou conseguirá ser outra coisa.

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