sábado, 11 de setembro de 2010

FELICIDADE POR DECRETO

No Senado brasileiro surgiu uma iniciativa tão estapafúrdia que mais parece ter decorrido de algum surto demencial, ou ser reflexo do oportunismo bacoco característico da época de campanha eleitoral que o país vive neste momento.

Trata-se da tentativa por parte de um senador, até agora considerado pessoa com discernimento e equilíbrio, de fazer aprovar uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que introduza na Lei Fundamental “o direito à busca de Felicidade por cada indivíduo e pela sociedade, mediante a dotação pelo Estado e pela própria sociedade das adequadas condições de exercício desse direito”. Segundo a PEC, o Art. 6º da Constituição Federal seria reformulado: “São direitos sociais, essenciais à busca da Felicidade [introduzido no articulado], a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a protecção à maternidade e à infância, a assistência aos desempregados, na forma desta Constituição”.

Ora, acontece, primeiro, que a busca da Felicidade é um direito natural inalienável de toda a pessoa, não precisando, portanto, de ser introduzido na Lei; segundo, que a Felicidade é algo mais volúvel e volátil que borboleta em manhã de Primavera.

Sem contornos definidos nem limites concretos, ela não pode ser definida. Há quem defenda, mesmo, que não existe, pelo menos com a estabilidade e a permanência que alguns pretendem quando falam dela; haveria, tão-só, uma sucessão de momentos agradáveis de diverso grau, do simples bem-estar ao supremo êxtase, interpolados por outros banais ou de sofrimento.

Não admite, pois, definição: é um conceito. E, como conceito, apesar das balizas genéricas porventura comuns a todas as pessoas, transporta em si um grau de subjectividade que reflecte os conteúdos psíquicos de cada ser humano – história pessoal, cultura individual e social, aspirações de longo prazo e desejos imediatos, emoções e sentimentos dominantes, percepção da situação económico-social, crenças e valores, entre outros.

Varia, então, de indivíduo para indivíduo e, em cada um, ao longo da vida. Se, num dado momento, a “minha Felicidade” residir na leitura de um livro de filosofia em sossego absoluto, e a de meu vizinho de baixo for ouvir heavy metal no máximo volume das suas colunas de som, há aqui um conflito que pode gerar infelicidade para ambos. Parece, assim, independentemente do exemplo tão extremado, que um conceito de Felicidade pode esbarrar no conceito do próximo. Por outro lado, aquilo que para mim seria o máximo de Felicidade ontem, poderá não ser hoje, e o de hoje não ser o de amanhã, porque eu me desiludi com o conseguido e/ou porque evoluí nas minhas aspirações.

Deste modo, não podendo ser definida e dependendo de inúmeros factores endógenos e exógenos, como tentar regulá-la e regulamentá-la num texto jurídico, em particular na Constituição? Como dizer o que é e o que não é, proibi-la ou incentivá-la, puni-la ou premiá-la? Poder-se-á tentar criar condições para que a sua consecução vá sendo facilitada ao longo da História de um Povo, mas nada mais do que isso. E tais intentos e diligências já se encontram expressos não só na Lei Fundamental, como em variadíssima legislação, quer geral, quer dirigida a sectores específicos da população, como idosos e crianças e adolescentes, por exemplo.

O tempo dos senadores é demasiado caro, pago a peso de ouro pelos contribuintes, para que eles possam dar-se ao luxo de o desbaratar em bizantinices, para mais havendo questões importantes, fundamentais e urgentes para resolver.

Tentar fazer da Constituição uma obra romântica, florida e colorida, é perfeito disparate. Ela tem de ser uma peça normativa, concisa, clara e objectiva.

Se os senhores senadores, e todo o Congresso, se empenharem a fundo e em permanência em exigir dos poderes executivo e judiciário o cabal e tempestivo cumprimento na íntegra de toda a legislação que o país possui, e se, além disso, os senhores senadores, e todo o Congresso, se empenharem a fundo e em permanência na elaboração de leis que punam com maior vigor e rigor os assassinos, os assaltantes, os sequestradores, os estupradores, os vigaristas, os corruptos e toda a gama de marginais que tornam cada vez mais difícil a vida da gente de bem, sejam eles de pé descalço ou de colarinho branco – a começar pelo próprio Congresso e continuando pela classe política na generalidade – estarão, sim, a fazer um esforço honesto para que todos os que vivem no Brasil possam ser mais felizes.

Tentar dar ao povo uma Felicidade por decreto é folclore barato para escamotear os reais problemas do Brasil.

sábado, 4 de setembro de 2010

O LIMITE É A MORTE

Brasil, sec. XXI.

Uma jovem acabada de sair da adolescência planeia o assassinato dos pais, um engenheiro e uma psiquiatra, para antecipar a tomada de posse da herança. Durante a noite abre a porta aos assassinos (o namorado e um amigo), e os pais são mortos a pauladas na cama.

Rapaz escapa de homicídio premeditado pelo pai e pelo irmão que queriam apoderar-se da fortuna que ele ganhara num jogo semanal do tipo lotaria.

O chorudo prémio obtido num jogo semelhante por um deficiente de cadeira de rodas foi o motivo para a morte encomendada pela mulher e perpetrada por um amante dela e um guarda-costas dele.

Professor universitário é atraído a uma cilada pela mulher de quem estava separado há quatro anos mas não divorciado. Dois assassinos contratados – um segurança dela e um amante de brinquedo, arranjado para o efeito, a quem ela pretendia silenciar definitivamente a seguir ao crime – esfaquearam-no na garagem da mulher; ela deu-lhe um tiro para confirmar a morte. Motivo: uma gorda pensão vitalícia e um atraente seguro de vida que a mulher o convencera a constituir.

Fora os casos não divulgados, a lista é interminável, e inclui os que ainda se encontram em investigação e têm o mesmo móbil – dinheiro.

Por dinheiro, o limite é a morte.

Morte encomendada, morte participada, morte executada.

No Brasil, a vida não tem valor. Como se se tratasse de algum lote de acções de uma empresa falida, a vida do outro é lixo, e assim é tratada quando esse outro se interpõe e interfere com interesses gananciosos imediatos.

A morte por assassinato banalizou-se. Entrou na rotina diária do cidadão, e este já nem sequer se espanta e muito menos se questiona.

Quando lhe toca pela porta, a princípio desespera-se, chora e revolta-se; depois, enterra os seus mortos, e a vida continua, povoada de mais homicídios (que nos últimos 15 anos aumentaram 32%).

Não parece ser entre as classes menos favorecidas que os crimes por dinheiro se manifestam prioritariamente. Pelo contrário, nas classes médias e abastadas, onde o dinheiro e bens correspondentes correm mais soltos e em maior quantidade, a avidez e a cobiça geram ambições desmedidas e acções torpes com redobrada frequência.

Valores universais – como o da preservação da vida – caíram em desuso, e tudo vale para satisfazer desejos de cada vez maior riqueza material, seja qual for o meio para o conseguir.

A Moral e a Ética foram relegadas para o baú das velharias inúteis. Pior: foram rotuladas de “empecilho” para a consecução de objectivos canalhas.

Esta ausência de moral e de ética nos relacionamentos interpessoais (e intrapessoais também) será a responsável por uma prática política notoriamente cada vez mais desviada de princípios morais e éticos? Ou, pelo contrário, é a política praticada sem moral e sem ética que tem induzido nas pessoas, por imitação, comportamentos amorais e antiéticos?

É provável que ambas as coisas se influenciem mutuamente.

Um indivíduo sem escrúpulos procurará na política um escudo de impunidade contra as condutas ilícitas e criminosas que planeia. Como é óbvio, tal esquema mental vai reflectir-se na condução dos negócios públicos – que passarão a ser privados.

Por outro lado, os políticos estão no foco dos cidadãos, em particular no que toca às malfeitorias que cometem, quando são descobertos. E o que constata a população? Que dos mais elevados aos mais baixos escalões dos quadros políticos impera a patifaria sem punição, muitas vezes menosprezada nos discursos oficiais como se de coisa sem importância se tratasse – e, o que é mais grave ainda, com a conivência e a cobertura, senão mesmo com a participação e o envolvimento de figuras do poder judicial.

Perante sucessivos e evidentes escândalos de políticos implicados e comprovadamente comprometidos com delitos gravosos contra o património público e contra terceiros, e perante sucessivos e evidentes escândalos de absolvição de tais delitos, cria-se uma atmosfera colectiva de imunidade e de indiferença perante a perversidade, presidida pelo convencimento de que o crime compensa – porque, neste desregramento, bastas vezes o crime tem a aparência de compensatório.

A percepção da realidade fica, assim, embotada e distorcida. As acções não são já norteadas por valores, mas por objectivos pérfidos. A reflexão é substituída por um imediatismo primário. Os anseios legítimos dão lugar a ambições espúrias. O discernimento afunda-se na insânia – e o limite é a morte.