Não sou dos que defendem de modo peremptório e definitivo que "antigamente é que era bom". "O antigamente" tinha o bom, o mau e todos os cambiantes do assim-assim, como tem "o hoje", relativizados nos contextos "do antigamente" e "do hoje".
Mas tenho de reconhecer – e quero fazê-lo – que se perdeu "no hoje" um benefício "do antigamente" cuja ausência criou um hiato de consequências nefastas na actual teia de relações sociais. Trata-se da extinta mas então profícua cooperação entre a Escola e a Família que se completavam na formação integral e integrada da criança e do jovem.
A Escola, a par da sua obrigação primeira de cumprir um plano de instrução curricular, tinha também por compromisso, de forma e acolhimento praticamente implícitos, a formação dos estudantes, de acordo com os vários grupos etários, nos campos da Ética e da Moral, do Civismo (dedicação pelo interesse público) e da Civilidade (aquele conjunto de formalidades observadas entre pessoas bem educadas como cortesia, delicadeza, polidez, respeito pelos outros e por si próprio, indispensáveis nas relações interpessoais de qualidade, e facilitadoras da compreensão, do entendimento e da tolerância).
Por seu lado, a Família, pese embora as eventuais excepções, transmitia, com o exemplo e com a palavra, valores universais repassados, admitidos, aceites e praticados de descendência em descendência, enquanto zelava, muitas vezes ao serão, pelo cumprimento das tarefas escolares diárias. Mesmo as famílias de recursos mais modestos no que toca a letrismo tinham alguma coisa a transmitir à prole, ainda que apenas embasada na tradição oral; apenas, mas de valor incalculável no desenvolvimento e na educação em sentido lato de filhos, netos ou sobrinhos, quando não mesmo de vizinhos também.
Hoje, o crescente relaxamento dos costumes nas famílias veicula exemplos desaconselháveis e incentiva a criação de padrões de comportamento socialmente desajustados; a perda dos laços e das relações familiares, proveniente dos novos figurinos estruturais impostos pelas pressões de sobrevivência de hoje, dificulta, se não impede, até, a transferência das experiências e da Experiência dos mais velhos; o menosprezo por princípios ancestrais (mas de valor intocável até à actualidade), substituídos por hábitos e paradigmas cada vez mais ávidos de consumismo, desestimula e contraria a comunicação de algo verdadeiramente válido e sólido; finalmente, o pretexto da falta de tempo e do cansaço do dia de trabalho pretende justificar o alheamento, o desinteresse sem remorso da Família quanto ao desempenho escolar dos educandos (e dos professores que os acompanham – acompanham?...).
Perante a indiferença de pais e encarregados de educação pela formação académica e do carácter e da personalidade dos educandos, muitas vezes eles próprios, pais e encarregados de educação, já mutilados no seu ascendente, e incapazes de definir e impor regras e limites, por desleixo, incompetência ou falta de aceitação da parte dos seus pupilos, tudo caldeado numa crescente e irrecuperável inabilidade para o diálogo, a escola, cinicamente, lava as mãos de contente, alegando que não pode substituir-se no papel da Família. Isso será verdade – ainda que discutível – mas daí à abdicação total do ofício de complementaridade que dantes exercia vai uma grande distância.
Não sei se a Escola de hoje já se apercebeu em profundidade – e sobre isso reflectiu – de uma coisa tão simples quanto terrífica: virou-se o feitiço contra o feiticeiro.
O cenário corrente apresenta-nos instalações escolares vandalizadas, professores agredidos (alguns com gravidade), armas brancas e de fogo dentro das escolas, bens de professores danificados (por exemplo, automóveis) por represália contra notas baixas ou iniciativas disciplinares, brigas entre alunos, de violência inusitada, a servir de palco histérico e bárbaro para os colegas de turma, calouros sujeitos a agressões que desdizem o espírito das praxes (ou trotes) como veículo de inserção dos mais novos no ambiente académico. Pior: não poucas vezes, são os pais a fomentar ou a praticar a violência sobre os professores e os colegas dos filhos.
A Escola decidiu unilateralmente – aproveitando a brecha da inércia da Família – que o seu objectivo deixou de ser a Educação (uf! Que alívio para aqueles mestres que nunca o quiseram ser) para se focar tão-só na Instrução (se bem que na terminologia que, abusivamente, continua a usar, nunca o admita). Ou seja, a sua actividade passou a esgotar-se na transmissão, e nem sempre da forma pedagógica mais correcta, de conhecimentos arrolados em programas nem sempre (quase nunca, seria melhor dito) desenhados segundo os interesses dos destinatários e/ou da sociedade, através de agentes nem sempre preparados tecnicamente e/ou vocacionados para a missão (os mercenários do ensino são uma realidade). Por fim, políticas equivocadas, nem sempre transparentes e com frequência de intuitos inconfessáveis, sobre cotas e aproveitamentos forçados (passagens obrigatórias) agravam a situação.
O afastamento verificado entre a Escola e a Família, que se dilatou paulatinamente ao longo das últimas gerações com o término das interconexão, interpenetração e complementaridade de papeis, e se tornou hoje divórcio, parece irreversível no estado actual das coisas, isto é, o estado actual da Família e da Escola.
Contudo, se o parece, isso não significa necessariamente que se mantenha assim
Depois, e com os olhos no objectivo, será preciso não desanimar perante as inevitáveis quedas no percurso, nem esperar resultados imediatos sobre o que levou anos a destruir.
