No dia da abertura da 64ª Assembleia Geral da ONU, 23 de Setembro,
Ao fazer isso, Lula da Silva ou procedeu de má fé, por pura demagogia e hipocrisia política, ou deu mais um testemunho desnecessário da irredutível e abrangente ignorância que o caracteriza e que, a haver bom senso, deveria ser uma óptima conselheira para que se mantivesse graniticamente calado em muitas situações. E esta foi uma delas.
Tanto se tem falado do caso das Honduras, tanto já se disse pró e contra um lado e outro, tanto já foi dado ler, tanta opinião confrontar, tanto parecer de especialista foi possível obter, que um cidadão medianamente informado, ou que o queira ser, facilmente se aperceberá, de forma imparcial, do que aconteceu, pese embora os múltiplos comentários que, também por má fé ou ignorância, teimam ainda em fornecer nos órgãos de informação uma visão deformada e sectária dos acontecimentos.
Em resumo, em Junho deste ano, o então presidente das Honduras, Manuel Zelaya, democraticamente eleito, tentou, antidemocraticamente e anticonstitucionalmente, promover um referendo para alterar a lei fundamental do país no sentido de poder reeleger-se. Porque tal procedimento fere frontalmente a Constituição hondurenha - que proíbe de forma taxativa a reeleição e condena quem a fomentar - o supremo tribunal de Honduras advertiu (melhor seria dizer "lembrou") o presidente Zelaya de que o que ele pretendia era ilegal, ao arrepio da Constituição do país. Reincidindo no crime e desafiando a normalidade democrática e a autoridade judicial, Zelaya insistiu duas vezes.
Talvez inspirado por outros golpistas da América do Sul que conseguiram garantir a manutenção no Poder até ao fim das suas mesquinhas eternidades, Zelaya poderá ter sentido as costas quentes perante a comunidade internacional face a esses exemplos. Mas, perante a insistência, o supremo tribunal de Honduras julgou o seu presidente à luz da Constituição do país, condenou-o e afastou-o do Poder, acções que foram aprovadas por quase unanimidade no respectivo Congresso. Também à luz do clausulado da Constituição, as Forças Armadas executaram a sentença.
Algumas figuras públicas se insurgiram, e bateram nessa tecla, contra o facto de Zelaya ter sido preso de pijama, como se isso tivesse alguma relevância. De pijama ou de smoking, é indiferente. Tinha de ser preso e foi. Compete aos órgãos de direitos humanos, hondurenhos ou outros igualmente adequados, avaliar se houve eventuais excessos na execução da sentença, e reclamar disso junto das organizações e dos tribunais competentes, incluindo os internacionais.
Foragido na Nicarágua, Zelaya prometeu regressar ao país para retomar a presidência, entretanto assumida pelo presidente do Parlamento, Roberto Micheletti, do mesmo partido de Zelaya, que constituiu um governo interino. Duas tentativas de regresso saldaram-se por fracassos.
Entretanto, Israel e Taiwan reconheceram o novo governo. A UE, os EUA, a maioria da América Latina e alguns outros países condenaram a acção constitucional do supremo tribunal de Honduras a que chamaram golpe, umas vezes militar, outras vezes civil (como seria golpe militar se os militares não quiseram o Poder?).
A Venezuela encabeçava os mais assanhados, obviamente. Em relação aos EUA, embora não tivessem manifestado reprovações muito acentuadas, seria de esperar um posicionamento diferente, aquele que, afinal, acabaram por manifestar algum tempo depois: circunspecção, distanciamento, procura da verdade, análise, opinião fundamentada; se tivessem esperado um pouco antes dos primeiros comentários, não teriam tido a necessidade de dar o dito por não dito. Peritos juristas da Biblioteca do Congresso americano consideraram a actuação do supremo tribunal de Honduras absolutamente legal, em todos os aspectos, à luz da Constituição do país. Alguns meses depois, eram os próprios EUA os primeiros a declarar aceitar o resultado das eleições que viessem a realizar-se, e a incitar a comunidade internacional a fazer o mesmo.
Entretanto, um belo dia (melhor seria dizer "um triste dia") Zelaya materializou-se à porta da embaixada do Brasil em Tejucigalpa, capital das Honduras, com armas e bagagens e uma comitiva de mais de uma centena de apoiantes, bateu ao ferrolho e, quase sem pedir licença, foi entrando. O Brasil, perante a presença do incómodo visitante ali prantado pela mãozinha sempre disponível para a confusão do "irmão Chavez", e comprometido pelas precipitadas declarações iniciais, viu-se obrigado a dar guarida à tropa fandanga y a su caudillo que se espojaram pelas instalações da embaixada, emporcalhando-as e depredando-as quanto possível.
Assenhoreando-se da legação como se estivesse em sua casa, Zelaya, sem pudor nem temor, dali lançava reptos ao governo de facto e instigava os cidadãos hondurenhos à desordem.
Enquanto isso, o Brasil, por falta de uma definição clara do que é a sua política externa, nunca esclareceu publicamente qual o estatuto do intruso - se é que os próprios governantes brasileiros o sabiam - e permitiu, submisso e inerte, o uso abusivo da embaixada como gabinete político do presidente deposto. Foi uma forma indirecta de se imiscuir nos assuntos internos dum Estado soberano, correndo, além disso, o risco de poder ser responsabilizado pelas perturbações da ordem decorrentes dos discursos provocadores e amotinadores de Zelaya.
Surgiram, então, mediadores internacionais, procurando ajudar a resolver a crise. E, depois de vários avanços e recuos induzidos por boas e más vontades de ambas as partes, chegou-se a um acordo. Mas, na última hora, Zelaya renegou tudo, pondo como condição - à partida insustentável - para colaborar, o seu regresso à presidência. O Congresso analisará a demanda, para o que terá em conta, com certeza, o parecer da Suprema Corte de Justiça que é contra a recondução. Mas, antes mesmo desta análise pelo Legislativo, Zelaya disparou, de repente, que já não quer a presidência, e exortou, ainda da embaixada do Brasil, os seus concidadãos a boicotarem as eleições.
Ao longo de toda a crise, Micheletti, o presidente interino, apesar de alguma rigidez em pontos concretos das negociações, tem pretendido ser conciliador e promotor da unidade nacional. Nem sempre o tem conseguido com pleno sucesso, em parte devido às suas próprias hesitações, em parte devido à delicada situação interna do país, dividido entre apoiantes e opositores de Zelaya.
Por seu lado, o presidente deposto joga, sistematicamente, em destruir oportunidades de consenso, e em semear a discórdia, o motim e o confronto entre o povo hondurenho.
No último dia de Novembro o povo foi às urnas eleger um novo presidente. Os EUA reconheceram a transparência do processo e aceitaram os resultados. O mesmo aconteceu com alguns países da Europa que, anteriormente, punham em causa a legalidade das eleições.
O pequeno e modesto país, Honduras, deu uma lição ao mundo. Uma lição de coerência ideológica e política, de defesa da sua Constituição de democracia, de brio.
O Brasil vai ter de engolir a arrogância com que sempre tratou aquele país, para o que o "assessor especial para os assuntos internacionais" já começou a ensaiar o discurso da marcha à ré. A expectativa agora é como irão devolver e a quem a mala sem pega "griffe" Zelaya que o irmão Chavez lhes colocou à porta.
