quinta-feira, 27 de maio de 2010

CARTEIROS DE PERNAMBUCO EM GREVE DE ADVERTÊNCIA

Os carteiros de Pernambuco fizeram no dia 26 de Maio uma greve de advertência – leia-se “de ameaça”. Só que, se eu não gosto de ser ameaçado por bandido, menos gosto ainda de me sentir ameaçado por quem é pago por mim – através dos impostos que desembolso a toda a hora – para prestar um serviço que é suposto ter de ser exercido diariamente com zelo, responsabilidade e a tempo e horas.

A Empresa de Correios e Telégrafos do Brasil (ECT) está uma lástima: objectos definitivamente perdidos, facturas para pagamento entregues fora de prazo, cartas e encomendas desviadas para endereços que não os dos destinatários, serviços caros de entrega rápida, como o Sedex, que parece recorrerem às antigas carruagens da mala-posta, enfim, um caos que ninguém consegue dominar dentro da empresa que se tornou uma casa sem rei nem roque. Para não falar já da corrupção infiltrada.

Se os carteiros têm razões de queixa e acham que a sua imagem está a ser degradada, enlameada, desacreditada por esse país fora – e está mesmo – será contra os responsáveis pela Empresa que terão de voltar-se, e não contra mim, pobre coitado, que já lhes sofro de sobra as insuficiências e incompetências, quando não mesmo as arrogâncias.

Esta greve de “advertência” veio, pois, e mais uma vez, prejudicar-me, a mim e a milhares de cidadãos a quem é cobrado um serviço que não funciona, cidadãos de todo alheios às questiúnculas intestinas dos Correios.

Mas, afinal, greve de “advertência” porquê e para quê?

Segundo a Imprensa, os carteiros fazedores da greve estão muito preocupados com uma possível intenção do governo de privatizar a ECT.

Então as coisas começam a ter outros contornos. Não parece crível que os carteiros estejam interessados, e muito menos apoquentados, se quem lhes paga o salário e as benesses é um conjunto de figurões que dá pelo nome de “governo”, ou um outro conjunto de figurões que dá pelo nome de “conselho de administração SA”.

Se olhassem para as empresas de sucesso, hoje na mão da iniciativa privada, e que ontem eram estatais quase à beira da ruína, talvez percebessem o diferencial de estar de um ou do outro lado do processo de gestão.

Há, sim, alguém, que não os carteiros, interessado em que a bagunça se perpetue para, no meio da confusão, continuar a sangrar dinheiros públicos da Empresa, desviando-os para fins pessoais ou de grupo (melhor seria dizer “de gangue”). E, com esse objectivo, manipula algum descontentamento dos carteiros, como as suas condições de trabalho, por exemplo, empurrando-os para greves sob pretextos que os próprios carteiros não enxergam com total clareza.

É que enquanto na empresa privada os dinheirinhos são bem controlados e a preguiça e a incompetência vão dormir na rua, na estatal o regabofe instalado tem tantos rabos de palha que não há da parte seja de quem for, nos vários escalões, idoneidade e a decorrente autoridade moral para pôr cobro à indisciplina, à incompetência, à irresponsabilidade e às irregularidades de comportamentos e de procedimentos.

Entretanto, quem vai pagando a factura é o contribuinte que sai duplamente lesado: porque paga por um serviço que não tem, e porque paga todas as consequências legais, comerciais, familiares, profissionais do extravio ou do atraso irremediável da correspondência que tem o direito constitucional e natural de receber.