O estabelecimento de bases americanas na Colômbia é um acordo bilateral entre estados soberanos que, do ponto de vista do direito internacional, só a eles diz respeito, já que firmar acordos é uma faculdade que lhes assiste, resguardada da intervenção, da apreciação ou do alvitre de qualquer outro país.
Ao arrepio das regras da boa diplomacia, assim não entenderam alguns países sul-americanos que resolveram polemizar o assunto, e nem sempre dentro dos limites recomendados pelas regras da boa educação e da cortesia. Típico de alguns governantes desta região do globo.
Poderia pensar-se que a acirrada celeuma se deveria ao facto de tal acordo se situar no âmbito militar, tema a que as nações são sempre sensíveis. mas se observarmos a região de um passado recente até agora, somos levados a concluir que a questão militar, só por si, é mero pretexto, e tem mais de pseudo-ideológico (e, mesmo assim, muito pobre), político e económico - de que, obviamente, o aspecto militar será um factor facilitador ou obstrutor da consecução de objectivos.
Neste momento, na América Central e do Sul há, ou houve até há pouco tempo, bases americanas pelo menos em Aruba, Curaçao, Antilhas holandesas, Cuba, Barbados, S. Salvador, Honduras, Panamá, Equador, Peru, Suriname, Bolívia, Paraguai e Argentina. Na Colômbia, os EUA estão instalados desde 1952.
Ora, mesmo considerando a retirada imposta aos americanos pelos novos governos de alguns desses países, não consta que a sua presença até então, ou até ao momento, tenha sido objecto de reclamações, pelo menos consistentes, coerentes e consequentes.
Por outro lado, alguns dos países que agora mais protestam contra o acordo EUA-Colômbia têm também os seus acordos militares com outros estados, designadamente no campo da aquisição de material de guerra (aviões, submarinos, blindados), da transferência de tecnologia, do treino e aconselhamento militar e das manobras conjuntas. Por exemplo, o Brasil está em negociações com a França e a Venezuela com a Rússia, à qual, inclusivamente, ofereceu bases para utilização. E contra isto ninguém se insurge.
Então o que há de novo no cenário que possa ter desencadeado tamanho estardalhaço?
O que há de novo no cenário é Hugo Chavez, Rafael Correa, Evo Morales e Álvaro Uribe. Um quinto elemento, Manuel Zelaya, ainda tentou mas não conseguiu entrar no clube dos manobristas para sucederem perpetuamente a si próprios no poder: o supremo tribunal de Honduras, país de que era presidente, percebeu-lhe o golpe do referendo e cortou-lhe as vasas, exilando-o, o que provocou a repulsa de alguns países muito preocupados com a democracia (porventura falsa) na casa dos outros, mas maltratando-a dentro das suas próprias fronteiras.
Chavez (Venezuela), Correa (Equador) e Morales (Bolívia) são arqui-inimigos dos EUA, talvez pela simples razão de que precisam de ter um inimigo para se assumirem, sobreviverem e explicarem o fracasso como governantes. Uribe (Colômbia) é amigo de longa data.
Os três primeiros conseguiram que a Constituição dos respectivos países fosse alterada de modo a conceder-lhes a governação por tempo ilimitado, para consolidação do "socialismo do sec. XXI".
Isto incomoda muito os EUA.
O outro obteve dos seus parlamentares autorização para um referendo que lhe permita um terceiro mandato, o que pode ser a porta aberta para o mesmo efeito prático alcançado por aqueles.
Isto não incomoda nada os EUA, bem pelo contrário, porque se Álvaro Uribe ganhasse um mandato até à eternidade, tal significaria a continuação assegurada da política de alianças com a Colômbia.
Qual o interesse dos EUA nessa política de alianças? os Americanos falam no combate ao narcotráfico. Não parece muito credível esse pretexto, se atendermos aos magros resultados nesse campo ao fim de tantos anos. Invocam também as FARC, e aí as coisas fazem algum sentido, na medida em que, apesar de bastante desengonçado, o movimento ainda enfileira à volta de 15.000 guerrilheiros em território colombiano, armados e apoiados pelos tais arqui-inimigos dos EUA (dois deles fazendo fronteiras opostas com a Colômbia), e que pode causar, pelo menos, alguma dispersão de esforços por parte de Uribe.
Mesmo assim, se as FARC, para os EUA, podem constituir alguma preocupação, esta insere-se nas preocupações maiores dum plano regional mais alargado.
A Colômbia poderá vir a estar para a América do Sul como Israel está hoje para o médio oriente. E a razão é a mesma - petróleo.
Os EUA são o maior consumidor (e armazenista para uso exclusivo) de combustíveis fósseis. No médio oriente mantêm incondicionalmente esse aliado que lhes serve de testa-de-ferro no controlo da imensa região dos poços de petróleo. O mesmo papel poderá estar reservado à Colômbia como ponto de apoio da influência americana na região do petróleo e do gás natural da América do Sul.
E é a perspectiva dessa influência bem presente e próxima que tanto enfurece Chavez e os seus "compagnons de route", na medida em que ela pode coarctar à nascença alguma tentativa aventureirista de qualquer deles, ou de conluio, que possa pôr em causa a paz na região. Por outro lado, essa presença torna a Colômbia mais firme e eficaz como pilar de resistência ao tal "socialismo do se. XXI".
Os restantes países do continente que se mostraram preocupados com o acordo e denunciaram as suas reservas, democracias mais consolidadas, fizeram-no, a meu ver, mais por solidariedade de bloco e estratégia diplomática face aos outros três do que por terem razões para temer a presença de americanos na Colômbia, onde, de resto, já estão há muito tempo.
Quanto aos três "camaradas", por não possuírem uma ideologia, nem séria nem profunda, com a qual tenham de ser coerentes, muito provavelmente remeter-se-ão ao pragmatismo das necessidades comerciais e do verde dólar para poderem matar a fome aos seus concidadãos - única forma de aguentarem à tona por mais algum tempo a barca em que navegam e que, segundo parece, já mete água por muitos buracos.
Ao arrepio das regras da boa diplomacia, assim não entenderam alguns países sul-americanos que resolveram polemizar o assunto, e nem sempre dentro dos limites recomendados pelas regras da boa educação e da cortesia. Típico de alguns governantes desta região do globo.
Poderia pensar-se que a acirrada celeuma se deveria ao facto de tal acordo se situar no âmbito militar, tema a que as nações são sempre sensíveis. mas se observarmos a região de um passado recente até agora, somos levados a concluir que a questão militar, só por si, é mero pretexto, e tem mais de pseudo-ideológico (e, mesmo assim, muito pobre), político e económico - de que, obviamente, o aspecto militar será um factor facilitador ou obstrutor da consecução de objectivos.
Neste momento, na América Central e do Sul há, ou houve até há pouco tempo, bases americanas pelo menos em Aruba, Curaçao, Antilhas holandesas, Cuba, Barbados, S. Salvador, Honduras, Panamá, Equador, Peru, Suriname, Bolívia, Paraguai e Argentina. Na Colômbia, os EUA estão instalados desde 1952.
Ora, mesmo considerando a retirada imposta aos americanos pelos novos governos de alguns desses países, não consta que a sua presença até então, ou até ao momento, tenha sido objecto de reclamações, pelo menos consistentes, coerentes e consequentes.
Por outro lado, alguns dos países que agora mais protestam contra o acordo EUA-Colômbia têm também os seus acordos militares com outros estados, designadamente no campo da aquisição de material de guerra (aviões, submarinos, blindados), da transferência de tecnologia, do treino e aconselhamento militar e das manobras conjuntas. Por exemplo, o Brasil está em negociações com a França e a Venezuela com a Rússia, à qual, inclusivamente, ofereceu bases para utilização. E contra isto ninguém se insurge.
Então o que há de novo no cenário que possa ter desencadeado tamanho estardalhaço?
O que há de novo no cenário é Hugo Chavez, Rafael Correa, Evo Morales e Álvaro Uribe. Um quinto elemento, Manuel Zelaya, ainda tentou mas não conseguiu entrar no clube dos manobristas para sucederem perpetuamente a si próprios no poder: o supremo tribunal de Honduras, país de que era presidente, percebeu-lhe o golpe do referendo e cortou-lhe as vasas, exilando-o, o que provocou a repulsa de alguns países muito preocupados com a democracia (porventura falsa) na casa dos outros, mas maltratando-a dentro das suas próprias fronteiras.
Chavez (Venezuela), Correa (Equador) e Morales (Bolívia) são arqui-inimigos dos EUA, talvez pela simples razão de que precisam de ter um inimigo para se assumirem, sobreviverem e explicarem o fracasso como governantes. Uribe (Colômbia) é amigo de longa data.
Os três primeiros conseguiram que a Constituição dos respectivos países fosse alterada de modo a conceder-lhes a governação por tempo ilimitado, para consolidação do "socialismo do sec. XXI".
Isto incomoda muito os EUA.
O outro obteve dos seus parlamentares autorização para um referendo que lhe permita um terceiro mandato, o que pode ser a porta aberta para o mesmo efeito prático alcançado por aqueles.
Isto não incomoda nada os EUA, bem pelo contrário, porque se Álvaro Uribe ganhasse um mandato até à eternidade, tal significaria a continuação assegurada da política de alianças com a Colômbia.
Qual o interesse dos EUA nessa política de alianças? os Americanos falam no combate ao narcotráfico. Não parece muito credível esse pretexto, se atendermos aos magros resultados nesse campo ao fim de tantos anos. Invocam também as FARC, e aí as coisas fazem algum sentido, na medida em que, apesar de bastante desengonçado, o movimento ainda enfileira à volta de 15.000 guerrilheiros em território colombiano, armados e apoiados pelos tais arqui-inimigos dos EUA (dois deles fazendo fronteiras opostas com a Colômbia), e que pode causar, pelo menos, alguma dispersão de esforços por parte de Uribe.
Mesmo assim, se as FARC, para os EUA, podem constituir alguma preocupação, esta insere-se nas preocupações maiores dum plano regional mais alargado.
A Colômbia poderá vir a estar para a América do Sul como Israel está hoje para o médio oriente. E a razão é a mesma - petróleo.
Os EUA são o maior consumidor (e armazenista para uso exclusivo) de combustíveis fósseis. No médio oriente mantêm incondicionalmente esse aliado que lhes serve de testa-de-ferro no controlo da imensa região dos poços de petróleo. O mesmo papel poderá estar reservado à Colômbia como ponto de apoio da influência americana na região do petróleo e do gás natural da América do Sul.
E é a perspectiva dessa influência bem presente e próxima que tanto enfurece Chavez e os seus "compagnons de route", na medida em que ela pode coarctar à nascença alguma tentativa aventureirista de qualquer deles, ou de conluio, que possa pôr em causa a paz na região. Por outro lado, essa presença torna a Colômbia mais firme e eficaz como pilar de resistência ao tal "socialismo do se. XXI".
Os restantes países do continente que se mostraram preocupados com o acordo e denunciaram as suas reservas, democracias mais consolidadas, fizeram-no, a meu ver, mais por solidariedade de bloco e estratégia diplomática face aos outros três do que por terem razões para temer a presença de americanos na Colômbia, onde, de resto, já estão há muito tempo.
Quanto aos três "camaradas", por não possuírem uma ideologia, nem séria nem profunda, com a qual tenham de ser coerentes, muito provavelmente remeter-se-ão ao pragmatismo das necessidades comerciais e do verde dólar para poderem matar a fome aos seus concidadãos - única forma de aguentarem à tona por mais algum tempo a barca em que navegam e que, segundo parece, já mete água por muitos buracos.

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