No Brasil, após uma catástrofe, seja ela devida a causas naturais ou não, há o hábito consolidado de dizer que se tratou de uma tragédia anunciada, isto é, previsível, logo, evitável, desde que tivesse havido o cuidado, o interesse e o empenho em evitá-la.
A verdade é que as catástrofes ocorrem em sucessão rápida todos os anos, todos os meses, a toda a hora, e os tais cuidado, interesse e empenho continuam a não fazer parte das agendas de trabalho dos responsáveis por preveni-las – governantes e políticos em geral.
A última, até agora, teve início em 6 de Abril no Estado do Rio de Janeiro, onde fortes e inesperados temporais transformaram pessoas e habitações em lama – a acrescentar à lama das consciências das "autoridades" – num saldo actual de mais de 200 mortos, a crescer em cada momento, dezenas de feridos e perto de 15.000 desabrigados a quem as mesmas "autoridades" não sabem que destino dar.
Cataclismos como terramotos, maremotos, dilúvios, inundações, derrocadas, avalanches, erupções acontecem por toda a parte, com maior ou menor intensidade e consoante as características geológicas e morfológicas dos terrenos e das zonas geográficas do planeta. O que muda radicalmente são a intensidade e a abrangência das consequências, e a forma de as encarar.
Uma vista de olhos ao redor do mundo revela que os efeitos mais nefastos de desordens naturais se verificam em áreas onde as infra-estruturas e os equipamentos sociais são deficitários, e/ou a corrupção política e administrativa invade as várias esferas do Poder. O Brasil reúne ambas as condições.
Enquanto uma multidão pobre chora nas ruas do Rio e de Niterói os seus mortos, os seus desaparecidos, os seus barracos destruídos, os seus suados haveres perdidos nas enxurradas de água e lodo, os vizinhos de famílias inteiras engolidas pelos desabamentos dos morros, o governador do Estado, na televisão, com um encolher de ombros entre arrogante e displicente, lava as farisaicas mãos e declara que as vítimas já sabiam que as construções se encontravam em zona de risco...
Esta mesma "autoridade", de nome Sérgio Cabral, figura próspera e despreocupada, é a mesma que, recentemente, numa sessão com universitários, caiu no ridículo de chorar perante a iminência da aprovação no Congresso de uma lei que lhe subtrairia do orçamento uns milhões largos por ano em royalties provenientes da exploração do petróleo efectuada no mar a alguns quilómetros da costa do Estado. Nessa ocasião muito se comoveu o Sr. Sérgio Cabral; tanto, que teve de abandonar por algum tempo a sala do encontro com os universitários. Não só ridículo: desavergonhado.
É claro que as construções que ruíram se encontravam em zona de risco. Mas cabe perguntar: que medidas tomou o Sr. Governador do Estado? Cedeu às comunidades carentes terrenos onde elas pudessem edificar as suas habitações? Disponibilizou técnicos para orientar as construções? Criou casas populares? Não, porque o compromisso do Sr. Governador do Estado é com o campeonato do mundo de futebol de 2014 e com os jogos olímpicos de 2016, os "grandes eventos" programados para o Rio de Janeiro. Os problemas dos morros e das favelas não fazem parte das preocupações do Sr. Governador do Estado.
Eram, sim, zona de risco. Não obstante, as "autoridades" levaram até lá electricidade e telefone – para evitar protestos da população – legitimando o que agora condenam.
Na cidade de Niterói, em frente ao Rio de Janeiro no outro extremo da baía de Guanabara, os prejuízos humanos e materiais foram ainda mais avultados. Quase toda uma comunidade alcandorada no morro desapareceu. Os casebres tinham sido erguidos sobre uma antiga lixeira que, desactivada há 30 anos, funcionou por cerca de quatro décadas. A decomposição do lixo, o acúmulo de metano, a penetração da água tornaram o terreno instável e explosivo, sumamente perigoso para construir – e o desastre aconteceu.
É fácil dizer, como o Sr. Sérgio Cabral, digníssimo governador do Estado do Rio de Janeiro, que o povo sabia que aquela era zona de risco. Mas torna-se necessário acrescentar que o povo constrói em zona de risco porque não tem outro local onde assentar as famílias, nem tem casas, nem tem saberes sobre o assunto – e porque as "autoridades" deixam, em total descaso, construir aí e até lhes fornecem alguma infra-estrutura, embora magra. A esse povo resta o espaço que as grandes imobiliárias e construtoras rejeitam, como as hortaliças desaproveitadas nos mercados públicos.
Em Niterói, famílias inteiras sucumbiram. Há seis anos, uma equipa interdisciplinar de investigadores da universidade local, onde pontuavam geólogos e arquitectos, apresentou um estudo com recomendações às "autoridades" sobre a periculosidade da área, e a necessidade urgente de recolocar em segurança aquela população. Hoje, o prefeito da cidade, à semelhança de outras figuras políticas em situação de notória irresponsabilidade, diz que nada sabia... Segundo a imprensa, há uma semana se sabia que o morro ameaçava. Ruir.
Num país diferente, num país decente, governador do Estado e prefeito da cidade já estariam afastados para sempre de cargos políticos e processados judicialmente.
O Estado do Rio de Janeiro tem um histórico continuado de calamidades naturais. Já na Baía isso não acontece. No entanto, do orçamento destinado a prevenir e acorrer a essas calamidades, o Rio recebeu menos de 1%, outros 18 Estados (num total de 27) receberam 3% (onde se inclui Santa Catarina, de frequentes desastres naturais) e a Baía, felizmente quase imune, sacou cerca de 66%.
Procurando destrinçar o "possível equívoco", verificou-se que o responsável pela repartição dos dinheiros para tais fins, um ministro até há pouco do actual governo Lula da Silva, é natural da Baía e candidato, este ano, ao governo do Estado. Ficou, assim, esclarecido o "equívoco", que parece gozar da bênção do presidente Lula, pois declarou publicamente que as revelações e as críticas do TCU (Tribunal de Contas da União) são "levianas" e "revelam um joguinho político pequeno" – comportamento típico do presidente Lula da Silva, empoleirado e extasiado na sua popularidade de 80%.
Se fosse num país diferente, se fosse num país decente...
