sábado, 31 de julho de 2010

“O PODER CORROMPE”

A imposição de Dilma Rousseff como candidata presidencial pelo presidente Lula, mesmo contra a opinião e os desejos de parte apreciável do partido a que ambos pertencem (PT – Partido dos Trabalhadores), faz parte de uma estratégia que assenta em dois pressupostos: um, de que Dilma ganha as eleições e será a presidente da República do Brasil entre 2011 e 2014; o outro, de que após estes quatro anos de exercício Dilma se retirará, incondicionalmente, para dar lugar ao regresso de Lula para um “reinado” de mais oito anos (quatro de mandato seguidos de quatro de reeleição).

Mas... tudo isto funciona ainda no campo do imaginário, e nem sempre o imaginário se reflecte na realidade.

1) Ainda que a candidatura de José Serra, o mais directo adversário, esteja muito trôpega, quer pelos episódios que a antecederam, quer pelo desenvolvimento actual, a verdade é que a vitória de Dilma não é ainda um dado adquirido.

2) Mesmo que a candidata saia vencedora, se fizer coincidir um ideário que defende (ou defendia até há pouco tempo), e que faz parte do seu histórico, com uma prática governativa, é possível que nem chegue ao fim do mandato, pois a sociedade brasileira, ou, pelo menos, boa parte dela, não parece disposta a aceitar desmandos revolucionários.

3) Admitindo que, eleita, seja forçada pelas circunstâncias a uma administração menos radical, nada garante que os Brasileiros anseiem por outra edição do lulismo.

4) A história da política brasileira é pródiga em traições, oportunismos, mentiras, tramóias, artimanhas e armadilhas, a começar pela própria independência do Brasil – infidelidade do príncipe regente D. Pedro ao pai, rei D. João VI.

a. Os amigos políticos de incontestável união de ontem tornam-se amanhã inimigos de morte (às vezes literalmente), desde que os interesses, sobretudo materiais, de um colidam com os do outro.

b. Um exemplo contemporâneo bem ilustrativo é o do relacionamento degradado – praticamente não se falam – entre o actual prefeito do Recife, João da Costa, e o seu antecessor, João Paulo. Enquanto João Paulo foi prefeito, João da Costa na secretaria do Orçamento Participativo, primeiro, e, depois, na secretaria do Planeamento Participativo assumia os cargos como braço direito e braço esquerdo do outro João; entre os dois estabeleceu-se uma “amizade”, uma “harmonia” e uma “ligação” aparentemente indestrutíveis. De tal modo que João Paulo o impôs, contra algumas facções do partido (o mesmo PT de Lula e Dilma) e por meio de grande celeuma, como candidato a prefeito nas eleições autárquicas. João da Costa ganhou, foi eleito prefeito do Recife (no Estado de Pernambuco e sua capital com cerca de 1.600.000 habitantes), e João Paulo preparou-se para continuar a governar o município através do seu protegido; mas deu-se mal: João da Costa, até então dócil e subserviente, rejeitou a tutela, negou-se a ser marionete e impôs à gestão o seu próprio cunho, independente das influências do padrinho político. Aí acabaram as “amizades”, as “harmonias”, as “ligações”, tanto políticas como pessoais.

5) A associação Lula/Dilma tem bastantes semelhanças com a história dos dois Joões.

a. Dilma foi ministra de Minas e Energia de Lula; depois passou a ministra chefe da Casa Civil do presidente, e aí tornou-se sua colaboradora preferida, a ponto de o presidente publicamente lhe atribuir o mérito por realizações que não lhe pertencem.

b. Lula, para promover a sua candidata, já a comparou, em comício, a Jesus Cristo, num daqueles rompantes ridículos e infelizes que o assomam em determinadas circunstâncias – circunstâncias que acabam por provocar um sorriso complacente nos ouvintes.

c. Mais grave, porém, é o sistemático atropelo à lei eleitoral que o presidente pratica com a indiferença de quem se acha imune à legislação. E, rindo com escárnio das multas aplicadas, perante um Judiciário tímido, Lula dá mostras de que não olha a meios para atingir os fins – a vitória eleitoral da sua Dilma.

6) Dilma, a quem a perspectiva de uma presidência – a primeira feminina no Brasil – traz a sensação do canto da sereia, deixa-se embalar numa simbiose de instrumento–adulação no jogo que ambos praticam e... não divulga o que realmente pensa quanto aos seus projectos.

7) Lula colocou uma auréola de fidelidade na imagem da santa Dilma que pretende vender. Ela vai cumprindo o papel de pupila leal e dedicada, e ele de mentor e protector empenhado no seu sucesso. A convergência dos dois papéis aparenta uma identidade de estilos, mas ela é ilusória: Lula formou-se na oficina e na luta sindical; Dilma na universidade e na guerrilha urbana – os dois processos tenderão a incentivar práticas diferentes.

8) Disse um historiador que “o Poder corrompe”. De acordo. Mas não corrompe necessariamente (ou apenas) no sentido em que hoje se entende o termo “corrupção”. O Poder corrompe ideologias, lealdades, alianças, associações.

9) Há traços de temperamento e de carácter de Dilma que denunciam a sua propensão para ser corruptível pelo Poder.

10) A pública maleabilidade da Dilma-utensílio aos interesses de Lula serve, também, os interesses manifestos ou dissimulados da Dilma-presidenciável.

11) Se Dilma for presidente da república e conseguir aguentar a pressão por quatro anos, sairá discreta e airosamente, livre e espontaneamente de cena para dar lugar ao seu patrono? É muito possível que não (desde que tenha condições sociais de elegibilidade). Aí terminarão os afectos políticos entre os dois, em mais um exemplo do que é a história política brasileira. A não ser que outras razões prevaleçam... Depois se verá – se for eleita.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

CÁ SE FAZEM, CÁ SE PAGAM 3

Se a candidatura de José Serra à presidência da República Federativa do Brasil está estremecida, a de Jarbas Vasconcelos ao governo do Estado de Pernambuco não o está menos.

A esta hora, talvez Jarbas já se tenha perguntado várias vezes se não teria sido melhor terminar condignamente o mandato de senador, e preparar-se para sair da política pela porta grande, deixando aos eleitores a lembrança de um vencedor.

No seu curriculum constam os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador, duas vezes governador do Estado de Pernambuco e duas vezes prefeito da sua capital – Recife.

Com a experiência acumulada ao longo de tal carreira, o que faz abalar a sua candidatura? Talvez não tanto uma hipotética sobrepujança da candidatura adversária – do actual governador que se recandidata, Eduardo Campos, do PSB (Partido Socialista Brasileiro) – mas, principalmente, os acidentes de percurso decorrentes duma preparação desastrosa da candidatura jarbista.

1. Jarbas Vasconcelos disse várias vezes – e publicamente – que não queria candidatar-se ao governo de Pernambuco. Talvez por cansaço, talvez pela previsível ferocidade da disputa, talvez por outra razão qualquer que só a ele dirá respeito. Mas disse-o, e isso não incute grande confiança nos eleitores nem os agarra. A falta de entusiasmo inicial contagia o eleitorado – que, já de si e na generalidade, parece não ter grandes razões de queixa de Eduardo Campos.

2. Depois de muito e continuamente pressionado por alguns partidos constituídos em base aliada, em particular pelo PSDB, Jarbas foi alimentando na opinião pública um chove não molha, nem sim nem sopas, arrastado pelo tempo suficiente para começar a enfastiar os eleitores. Foi demasiado tardia a comunicação a comunicação ao povo da sua decisão de se candidatar mais uma vez ao governo do Estado. Tardia e sem alma, apagada.

3. Jarbas Vasconcelos é um dos fundadores do MDB, actual PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), ao qual se tem mantido fiel. No entanto, é seu dissidente e já o acusou, por diversas vezes, de ser um antro de corrupção. Não bastasse isto para que a maioria do PMDB não o suportasse, o partido, o maior do Brasil, decidiu apoiar à presidência da República a candidata Dilma Rousseff, imposta pelo presidente Lula, padrinho político de Eduardo Campos.

4. Além deste revés, os partidos da base aliada de Jarbas Vasconcelos têm profundas divergências em alguns círculos eleitorais do país, não formando um bloco coeso e homogéneo.

5. Jarbas foi “empurrado” pelo PSDB para aceitar a candidatura, de modo a que o Estado de Pernambuco, tradicionalmente afecto ao presidente Lula da Silva, pudesse ter um enclave para a propaganda da candidatura à presidência de José Serra, do mesmo PSDB. E Jarbas submeteu-se ao “empurrão”, convicto de que poderia contar na sua lista com os nomes que em tempos compuseram a lista vencedora, por ele encabeçada, da candidatura ao governo do Estado. Mas aí vários contratempos aconteceram.

- A principal figura com que Jarbas contava, o senador Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB, tirou-lhe o tapete e não se recandidatou ao Senado.

- A substituição de Sérgio Guerra como senador na lista de Jarbas foi demorada, tomando ares de novela contada aos bocadinhos. Vários nomes do PSDB convidados recusaram publicamente de modo peremptório.

- Aceitou a função, tarde e a más horas, um membro doutro partido, muito tempo depois de ele próprio ter negado, por diversas vezes e de forma convincente, que aceitaria. Em breve a imprensa noticiava que o seu segundo suplente estava na lista dos inelegíveis do TCE (Tribunal de Contas do Estado) por supostas irregularidades em anteriores cargos públicos.

- A indicação do nome da vice-governadora foi tirado a ferros, quase em cima da convenção que oficializou a candidatura.

- No meio disto tudo, Sérgio Guerra, o maior “empurrador” de Jarbas Vasconcelos, furtou-se sempre a comparecer aos eventos da candidatura, sob o pretexto de que estaria muito atarefado na organização da candidatura presidencial de José Serra.

Com tal cenário, rico em tramóias, indecisões, pressões, recusas, aquiescências forçadas, a candidatura de Jarbas Vasconcelos não prima pelo fulgor. O seu objectivo não parece ser a conquista do governo do Estado, mas tão-só conseguir um palanque de propaganda para José Serra.

Uma candidatura que não crê na vitória (ou que não quer a vitória) não pode sair vencedora.

Jarbas Vasconcelos merecia um fim melhor – e o PSDB de Sérgio Guerra (ou o Sérgio Guerra do PSDB) devia-lhe isso.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

CÁ SE FAZEM, CÁ SE PAGAM 2

Diversos analistas, comentaristas, editorialistas, colunistas formaram uma unanimidade sobre a pouca força política do Partido Democrata (DEM), logo após a divulgação, pelas vias oficiais, do nome do candidato à vice-presidência da República, o senador Álvaro Dias, do mesmo partido do candidato à presidência, José Serra – Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).

Mal tinha sido feito o anúncio, o DEM veio à praça pública estrebuchar, alegando (gritando) que o lugar seria seu, por acordo com o aliado PSDB, uma vez que o candidato que poderia ser aceite por todos – o ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves, também do PSDB – rejeitara o (en)cargo.

Então, aqueles analistas, comentaristas, editorialistas e colunistas reiteraram nos seus escritos a fragilidade do DEM, e quase galhofaram, assegurando que estava feito e ponto final: o vice de Serra era Álvaro Dias, e os DEM que se conformassem.

Opiniões temporãs e pouco fundamentadas, pelo que se viu a seguir.

O assunto tomou proporções inusitadas de guerra entre aliados, com ameaças do DEM de se retirar da aliança e, consequentemente, de deixar de apoiar a candidatura de Serra.

Por certo muito mais foi dito nos bastidores e não divulgado (ainda). Serra teve de intervir, e o caso acabou por ser resolvido pelos velhos chefões dos dois partidos, reunidos à pressa, madrugada dentro, antes que a coisa azedasse ainda mais.

Perante uma opinião pública pasmada com tanto amadorismo, o PSDB acabou por passar pelo vexame de dar o dito por não dito, vergando-se à imposição do tal “partido fraquinho”, e infligindo ao seu senador Álvaro Dias, homem de prestígio, uma humilhação que jamais aconteceria se o projecto tivesse sido amadurecido e desenvolvido com tempo, de forma profissional e segundo parâmetros politicamente correctos.

A seguir veio o despropósito: a imposição por parte do DEM de Indio da Costa, um jovenzinho deputado federal de 39 anos, do Rio de Janeiro, o terceiro círculo eleitoral, praticamente desconhecido da população, cujo único acto de destaque foi, ao que parece, o de relator do projecto de iniciativa popular “ficha limpa” (já aqui referido numa análise anterior). Nada de mais relevante tem a oferecer aos eleitores em termos de experiência e muito menos de peso político.

A juventude é importante para a renovação política a nível de ideias, de entusiasmo, de dinamismo, mas há necessidade de diferenciar patamares: nem tanto ao mar, nem tanto à terra; juventude em política não é o mesmo que juventude em futebol.

Por maiores que sejam as qualidades de Indio da Costa, estaria preparado para ser o presidente da República Federativa do Brasil em caso de impedimento do titular José Serra? Creio que não. Se tal tivesse de acontecer, em caso de período prolongado, é previsível que seria devorado pelos tubarões da politiquice.

PSDB e DEM primaram pela falta de senso e deram aos eleitores uma triste imagem de incompetência, vazio e desunião, criando, assim, a José Serra dificuldades acrescidas na sua já sobejamente dificultada campanha.

Claro que nada disto terá importância se nem Serra nem o PSDB estiverem interessados na presidência da República. Mas se assim for, então a política, no Brasil, não passa de uma batata.