A imposição de Dilma Rousseff como candidata presidencial pelo presidente Lula, mesmo contra a opinião e os desejos de parte apreciável do partido a que ambos pertencem (PT – Partido dos Trabalhadores), faz parte de uma estratégia que assenta em dois pressupostos: um, de que Dilma ganha as eleições e será a presidente da República do Brasil entre 2011 e 2014; o outro, de que após estes quatro anos de exercício Dilma se retirará, incondicionalmente, para dar lugar ao regresso de Lula para um “reinado” de mais oito anos (quatro de mandato seguidos de quatro de reeleição).
Mas... tudo isto funciona ainda no campo do imaginário, e nem sempre o imaginário se reflecte na realidade.
1) Ainda que a candidatura de José Serra, o mais directo adversário, esteja muito trôpega, quer pelos episódios que a antecederam, quer pelo desenvolvimento actual, a verdade é que a vitória de Dilma não é ainda um dado adquirido.
2) Mesmo que a candidata saia vencedora, se fizer coincidir um ideário que defende (ou defendia até há pouco tempo), e que faz parte do seu histórico, com uma prática governativa, é possível que nem chegue ao fim do mandato, pois a sociedade brasileira, ou, pelo menos, boa parte dela, não parece disposta a aceitar desmandos revolucionários.
3) Admitindo que, eleita, seja forçada pelas circunstâncias a uma administração menos radical, nada garante que os Brasileiros anseiem por outra edição do lulismo.
4) A história da política brasileira é pródiga em traições, oportunismos, mentiras, tramóias, artimanhas e armadilhas, a começar pela própria independência do Brasil – infidelidade do príncipe regente D. Pedro ao pai, rei D. João VI.
a. Os amigos políticos de incontestável união de ontem tornam-se amanhã inimigos de morte (às vezes literalmente), desde que os interesses, sobretudo materiais, de um colidam com os do outro.
b. Um exemplo contemporâneo bem ilustrativo é o do relacionamento degradado – praticamente não se falam – entre o actual prefeito do Recife, João da Costa, e o seu antecessor, João Paulo. Enquanto João Paulo foi prefeito, João da Costa na secretaria do Orçamento Participativo, primeiro, e, depois, na secretaria do Planeamento Participativo assumia os cargos como braço direito e braço esquerdo do outro João; entre os dois estabeleceu-se uma “amizade”, uma “harmonia” e uma “ligação” aparentemente indestrutíveis. De tal modo que João Paulo o impôs, contra algumas facções do partido (o mesmo PT de Lula e Dilma) e por meio de grande celeuma, como candidato a prefeito nas eleições autárquicas. João da Costa ganhou, foi eleito prefeito do Recife (no Estado de Pernambuco e sua capital com cerca de 1.600.000 habitantes), e João Paulo preparou-se para continuar a governar o município através do seu protegido; mas deu-se mal: João da Costa, até então dócil e subserviente, rejeitou a tutela, negou-se a ser marionete e impôs à gestão o seu próprio cunho, independente das influências do padrinho político. Aí acabaram as “amizades”, as “harmonias”, as “ligações”, tanto políticas como pessoais.
5) A associação Lula/Dilma tem bastantes semelhanças com a história dos dois Joões.
a. Dilma foi ministra de Minas e Energia de Lula; depois passou a ministra chefe da Casa Civil do presidente, e aí tornou-se sua colaboradora preferida, a ponto de o presidente publicamente lhe atribuir o mérito por realizações que não lhe pertencem.
b. Lula, para promover a sua candidata, já a comparou, em comício, a Jesus Cristo, num daqueles rompantes ridículos e infelizes que o assomam em determinadas circunstâncias – circunstâncias que acabam por provocar um sorriso complacente nos ouvintes.
c. Mais grave, porém, é o sistemático atropelo à lei eleitoral que o presidente pratica com a indiferença de quem se acha imune à legislação. E, rindo com escárnio das multas aplicadas, perante um Judiciário tímido, Lula dá mostras de que não olha a meios para atingir os fins – a vitória eleitoral da sua Dilma.
6) Dilma, a quem a perspectiva de uma presidência – a primeira feminina no Brasil – traz a sensação do canto da sereia, deixa-se embalar numa simbiose de instrumento–adulação no jogo que ambos praticam e... não divulga o que realmente pensa quanto aos seus projectos.
7) Lula colocou uma auréola de fidelidade na imagem da santa Dilma que pretende vender. Ela vai cumprindo o papel de pupila leal e dedicada, e ele de mentor e protector empenhado no seu sucesso. A convergência dos dois papéis aparenta uma identidade de estilos, mas ela é ilusória: Lula formou-se na oficina e na luta sindical; Dilma na universidade e na guerrilha urbana – os dois processos tenderão a incentivar práticas diferentes.
8) Disse um historiador que “o Poder corrompe”. De acordo. Mas não corrompe necessariamente (ou apenas) no sentido em que hoje se entende o termo “corrupção”. O Poder corrompe ideologias, lealdades, alianças, associações.
9) Há traços de temperamento e de carácter de Dilma que denunciam a sua propensão para ser corruptível pelo Poder.
10) A pública maleabilidade da Dilma-utensílio aos interesses de Lula serve, também, os interesses manifestos ou dissimulados da Dilma-presidenciável.
11) Se Dilma for presidente da república e conseguir aguentar a pressão por quatro anos, sairá discreta e airosamente, livre e espontaneamente de cena para dar lugar ao seu patrono? É muito possível que não (desde que tenha condições sociais de elegibilidade). Aí terminarão os afectos políticos entre os dois, em mais um exemplo do que é a história política brasileira. A não ser que outras razões prevaleçam... Depois se verá – se for eleita.
