quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O MISTÉRIO DOS AVIÕES ou LIGAÇÕES PERIGOSAS

Dassault e Serge Dassault são nomes ainda pouco familiares para os Brasileiros. Mas, provavelmente, isso será por pouco tempo.
A Dassault é uma megacompanhia francesa com várias áreas de negócio, de que se destaca a aeroespacial. Líder da indústria aeronáutica e militar francesa, fabrica os aviões de caça Rafale que nunca conseguiu vender em parte alguma do mundo: fracassou tentativas na Coreia do Sul, em Singapura, na Holanda, na Arábia Saudita e em Marrocos, perdendo os respectivos concursos para outros concorrentes.
Não obstante esta fraca carta de apresentação, foi por este aparelho que, num rasgo de perspicácia inexplicável, o presidente do Brasil, Lula da Silva, optou, anunciando, no dia da festa da independência do Brasil e na presença do presidente da república da França, a decisão de fechar negócio para a compra de três dúzias destes aviões.
Excedeu-se o presidente, levado, decerto, por um impulso primário de novorriquismo perante o ilustre visitante francês. É que na corrida há mais duas concorrentes: a Boeing americana e a Saab sueca, ambas com máquinas do mesmo tipo e mais baratas (os aviões suecos ficam por metade do preço dos franceses e são os de custo mais baixo no ciclo de vida útil).
Daí que, poucos dias depois, o ministro da defesa, Nelson Jubin, e a seguir o próprio Lula da Silva tiveram de dar o dito por não dito, declarando que tudo estava em aberto nas negociações com os três candidatos a fornecedores. Enfim, uma vergonha provocada por uma precipitação evitável.
O retrocesso, no fundo, não será mais do que fictício, por isso o humor dos franceses deve ter-se mantido inalterado, uma vez que a encomenda dos aviões faz parte de um pacote de que consta a construção conjunta de 50 helicópteros de transporte, de um submarino de propulsão nuclear e quatro convencionais, de um estaleiro e de uma base naval de apoio. Tudo somado, deve andar pelos dez bilhões de dólares americanos, para os quais o Congresso brasileiro autorizou um crédito de 25 bilhões de Reais. Além disso, os franceses devem ter outras boas razões para estarem seguros de que, finalmente, impingirão os seus Rafales a algum país, ou o presidente Lula não se teria mostrado tão disponível para o negócio.
Quanto a Serge Dassault, de 84 anos, dono da empresa em questão com o título de "presidente honorário", filho do fundador, é senador por uma região de Paris, representando o partido conservador do presidente francês. Integrou a comitiva presidencial na visita ao Brasil, e Lula da Silva, na véspera da sua extemporânea revelação quanto à preferência pelos Rafales, condecorou-o com o mais elevado título que pode ser concedido a um estrangeiro: Grande Oficial da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, distinção registada por decreto publicado no "Diário Oficial" de meados de Setembro e assinado por Lula e pelo ministro das Relações Exteriores.
Que benefícios legou o sr. Dassault ao Brasil a ponto de merecer tal reconhecimento é coisa que ninguém sabe explicar e o decreto não reza, o que, no mínimo, é pouco curial e pode levar a suspeição. E a dúvida aumenta quando todo o mundo político e diplomático sabe, à excepção, aparente, do Brasil, que Serge Dassault é um escroque. Em Dezembro de 2008, o Supremo Tribunal Belga condenou-o a dois anos de prisão, com pena suspensa, e multa por corrupção activa. Para conseguir vender um punhado de helicópteros militares ao exército da Bélgica, subornou dirigentes socialistas, tão escroques quanto ele - o Partido Socialista recebeu quatro milhões de Euros. O esquema envolveu empresários, políticos e administradores públicos.
É esta figura que compra pessoas para vender máquinas de guerra - e que tem como certa a venda de aviões, helicópteros e submarinos ao Brasil - que acaba de ser agraciada com a mais alta condecoração pelo governo brasileiro.
Voltando aos aviões, o presidente Lula invocou questões de estratégia e de política para a opção. Mas qual estratégia e qual política não explicou.
O avião Rafale, para além de ser o mais caro dos três candidatos, é o último nas preferências da Força Aérea Brasileira.
Como percebeu que a justificação nada justificava e tornava o caso cada vez mais nebuloso, Lula deu como pretexto uma prometida transferência de tecnologia da França para o Brasil. Mas aqui duas questões se colocam: a tecnologia tem agora dez anos, e quando terminar a construção dos aparelhos terá vinte, ou seja, estará bastante ultrapassada; por outro lado, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e nada poderá garantir que no futuro essa transferência de tecnologia não seja bloqueada; basta lembrar a guerra das Malvinas, entre a Inglaterra e a Argentina: depois de uma reunião entre representantes dos governos da Grã-Bretanha e da França, os mísseis franceses vendidos à Argentina ficaram inoperacionais na guerra; os técnicos construtores, em solidariedade para com os Britânicos, à distância introduziram um código nos mísseis, corrompendo os sistemas de pontaria; os mísseis não acertaram nenhum alvo inglês, e a Grã-Bretanha ganhou facilmente a guerra.
Como se não bastasse, no meio de toda esta história aparece a figura acinzentada de um empresário brasileiro de nome José Amaro Pinto Ramos, muito próximo de políticos do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB). Investigado pelo Ministério Público de São Paulo e pelo FBI americano, por malandragens várias, cá e lá, é apontado como lobista de peso no negócio entre a Dassault e o governo brasileiro para a aquisição dos aviões Rafale.
Depois de uma fase de arrogância e soberba, crises de que é atacado com alguma frequência, Lula da Silva baixou um pouco o tom, talvez incomodado pela repercussão e os questionamentos ligados ao caso Dassault/Rafale. No entanto, tanto ele como o seu ministro da defesa continuam a não ser capazes (ou a não querer) explicar as razões técnicas da opção pelos aviões franceses - talvez porque não haja tais razões e as razões sejam outras.

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