Alcides do Nascimento Lins morreu.
Morreu precocemente: era um jovem adulto de 22 anos, a fechar ainda, hesitante, a porta da adolescência.
Morreu barbaramente: assassinado por dois bandidos à porta de casa, um de 16 anos, outro, de 28, foragido da prisão onde cumpria pena de 16 anos por homicídio – um juiz passou-o do regime fechado para o semi-aberto, e um guarda prisional facilitou-lhe a fuga; já havia uma primeira fuga anterior.
Morreu ingloriamente: finalista do curso de biomedicina da Universidade Federal de Pernambuco e estagiário do Hemope (Centro de Hematologia e Hemoterapia), elogiado por professores e orientadores, muito teria para dar à sociedade com o seu trabalho e entusiasmo pela pesquisa científica.
Morreu inutilmente: todos perderam com a sua morte, até os assassinos.
Às onze e meia da noite de sexta-feira, 5 de Fevereiro, dois tiros cobardes, à queima–roupa na cabeça, disparados à frente da mãe e das três irmãs, puseram fim a uma carreira ainda mal começada mas que se apresentava promissora.
No dizer de quem o conhecia, o rapaz negro, órfão de pai, filho de uma mulher que, para sustentar a família, puxava uma carroça onde transportava lixo para reciclar, catado diariamente nos caixotes, era um exemplo de pessoa e de estudante.
Morador de um pobre barraco da favela Santa Luzia, na Zona Oeste do Recife, Alcides nunca se deixou envolver pelos assédios do tráfico de drogas, e isso, em parte, perdeu-o.
Alcides era demasiado conhecido como pessoa de bem naquela comunidade carente. E também fora dela: figurava em veículos de publicidade de instituições de ensino. Oriundo do ensino público, entre deficiente e fictício, ele fora o primeiro classificado, em 2007, no vestibular das universidades federais. Isso dera-lhe fama.
Os seus executores sabiam quem matavam.
A pretexto de procurar na casa ao lado alguém ligado às drogas, por disputa de pontos de venda, invadiram o barraco de Alcides. E a pretexto, agora, de não terem encontrado quem queriam, nem terem obtido de Alcides a informação que desejavam, abateram-no. É assim que se marcam posições de chefia nas favelas onde o crime é lei. Não houve qualquer engano, ao contrário do que se procurou argumentar, a princípio.
Alcides, furtando-se aos engodos e ao controlo do tráfico, foi vítima de um Estado que não pôde, não soube ou, simplesmente, não quis, por indiferença e desleixo, proporcionar-lhe condições de vida mais convenientes e adequadas para a tarefa que zelosamente cumpria, e protegê-lo da raiva incontida de energúmenos despeitados e invejosos, para quem a vida alheia só vale enquanto se submeter à sua tirania e aos interesses do crime organizado.
O Estado, o mesmo que agora ensaia, constrangedor, discursos bonitinhos, o mesmo que agora exibe lágrimas de crocodilo, deixou Alcides morrer.
Numa sociedade em que o Estado se mostra incapaz de proteger os cidadãos contra os malfeitores e não é por isso responsabilizado; em que juízes, levianamente, soltam bandidos reconhecidamente perigosos porque as prisões estão superlotadas, expondo, assim, os cidadãos a cada vez piores malfeitorias e não são por isso penalizados; em que as instituições policiais são um poço de corrupção sem que os corruptos sejam exemplarmente castigados; em que o ministro da Justiça, ao deixar o cargo para se dedicar à barganha política, atesta publicamente que no país existe "uma impunidade generalizada" e não é obrigado a prestar contas por isso; numa sociedade em que se matam Alcides sem dó nem piedade, e outros mais, a torto e a direito, em que o que porventura ainda resta da capacidade de indignação é diluída por um Carnaval financiado para mascarar misérias, onde se meteu essa boa gente dos direitos humanos, sempre pronta a reclamar quando o malandro apanhado em flagrante é sovado na praça pública? Porquê esse silêncio comprometedor?
Pois é. Aqui, essa "gente bem intencionada" só vem à liça para defender bandido. Talvez seja por isso que se diz que de "boas intenções" está o inferno cheio. Dá para acreditar.
