terça-feira, 29 de junho de 2010

CÁ SE FAZEM, CÁ SE PAGAM 1

É um ditado antigo: cá se fazem, cá se pagam – querendo com isto dizer que a contabilidade do universo é implacável para com todas as asneiras, incluindo as asneiras políticas.

A confirmação mais recente pode observar-se no que vem acontecendo com a candidatura de José Serra à presidência da República Federativa do Brasil, e com a de Jarbas Vasconcelos ao governo do Estado de Pernambuco, no Nordeste do mesmo país.

A forma como dois políticos de elevada (e confirmada) craveira estão a tropeçar desamparadamente (e quase desesperadamente) nas respectivas candidaturas leva-nos a pensar em como a prática política é um assunto complicado (e, por vezes, sujo), aconselhando cautelas e reflexão cuidada, por um lado, e rasgos de coragem e proactividade, por outro.

Se um curriculum só por si decidisse, José Serra já estava eleito. Homem público de fino trato, ex-ministro da Saúde, ex-ministro do Planejamento, ex-prefeito, ex-deputado, ex-senador e ex-governador da maior metrópole brasileira – São Paulo – onde já fora secretário de Economia e Planejamento, ex-candidato à presidência da República, indicado agora para a disputa pelo seu partido – Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) – escolha polémica que preteriu um correligionário que se propunha para o cargo, o ex-governador Aécio Neves, de Minas Gerais, segundo maior distrito eleitoral do país.

Serra, apoiado pelas regiões de maior riqueza econômica e financeira, parecia reunir, considerando a questão do ponto de vista teórico, condições para se sentir em confortável vantagem face à sua mais directa adversária – a arrogante, inexperiente e principiante Dilma Rousseff, ex-ministra de Minas e Energia e ex-ministra chefe da Casa Civil do actual governo, candidata que o presidente Luís Inácio Lula da Silva enfiou pela goela abaixo da maioria da militância e de grande número de quadros do seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT).

A realidade, porém, é bem outra: Dilma, calma mas firmemente, vem ultrapassando Serra nas pesquisas de intenção de voto, mesmo fora dos santuários historicamente agregados ao PT.

É verdade que o presidente Lula, despudoradamente e à margem da lei, tem vindo a fazer, de há dois anos a esta parte, alcandorado numa popularidade de 80%, a propaganda eleitoral da sua candidata.

Mas isto não explica tudo, nem é, talvez, a razão de fundo.

A disputa entre os dois candidatos do PSDB (terceiro maior partido em número de militantes e segundo no número de prefeitos em todo o país) foi acirrada, provocou brechas no partido, das bases às cúpulas, e passou para o exterior uma imagem de falta de coesão e de indecisão, já que o resultado, conflituoso, demorou a sair. Mais: o outro candidato, Aécio Neves, que chegou a encarar a hipótese de realização de prévias para que o partido no seu todo mostrasse a sua opção, preterido, acabou por se desinteressar da campanha que se avizinha, mostrando claramente a sua indisponibilidade para colaborar: rejeitou liminarmente e com veemência todas as (muitas) insistências para que aceitasse ser o vice de Serra, e vai tratar da sua própria candidatura ao Senado.

A escolha de Serra para candidato do PSDB à presidência da República foi um erro. A rejeição de Aécio Neves pelo partido foi outro, não sei se pior.

Serra será um bom técnico, um bom gestor, um bom administrador. Mas não tem carisma; é travado; é postiço; ri com a boca mas não com os olhos. Não empolga. E isso conta em campanha, em particular num país de fraca cultura política, em que grande parte do eleitorado vota pela emoção e não pela razão.

Aécio Neves fez um bom trabalho como governador de Minas, o segundo círculo eleitoral, repita-se, tem presença, tem naturalidade, tem qualidades explícitas de liderança, algum carisma e transmite a idéia de dinamismo – coisas que faltam em Serra.

Alegou-se que Aécio Neves não ganharia o pleito; Serra, previsionalmente, perdê-lo-á. Aécio Neves, mesmo perdendo agora, ganharia experiência e firmaria nome (e eleitores) para próximas eleições. Serra tem um lastro de perdas eleitorais para a presidência, e esta, pela idade, poderá ser a sua última oportunidade. Aécio Neves é jovem e representa um arejamento no partido e na política. Serra é o representante dos velhos senhores do partido.

Enquanto o presidente Lula se movia pelo país com Dilma em bandoleira, mostrando-a ao povo e dizendo, implícita ou explicitamente, “votem nela” (o que o tornou coleccionador de multas dos tribunais eleitorais, de que, aliás, se ri desavergonhadamente), Serra, aparentemente alheado do momento político, entaipado no palácio do governo de São Paulo, foi adiando, e adiando, e adiando o momento de dizer ao povo – “aqui estou, concidadãos; eu sou o cara!”. Indecisão, soberba, desinteresse, medo, tudo cabe na apreciação de tais adiamentos. Se com isso se pretendeu colher benefícios, tentando criar uma onda de desejo pelo candidato, não surtiu esse efeito. Pelo contrário, confundiu e cansou o eleitor. E Dilma ia ganhando aos pontos, isto é, aos votos.

Depois, mais um alargado compasso de espera para a decisão pelo vice. Ninguém percebeu o porquê de tanta demora, para terminar noutro erro estratégico: a escolha de um senador de dentro do partido hostilizou os principais aliados – Partido Democrata (DEM) – com quem havia acordo para que a vaga fosse deles em caso de recusa de Aécio Neves.

Os Democratas estão em pé de guerra e entalaram Serra (e o PSDB) numa camisa de onze varas. O ultimato está lançado: ou Serra renega o seu vice já escolhido e divulgado, ou os DEM retirarão o apoio na campanha – decisão a tomar dentro de poucos dias, aquando da convenção do Partido Democrata.

Tudo isto deixa no ar um cheiro de desagregação e insegurança, aproveitado por Dilma Rousseff para se afirmar – malgrado todas as insuficiências notórias que possui. E os números das pesquisas estão aí a mostrar isso mesmo.

Em próxima oportunidade falarei de Jarbas Vasconcelos e da sua candidatura ao governo do Estado de Pernambuco.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

E O BRASIL PERDEU

À hora a que escrevo estas linhas, 15:35h do dia 15 de Junho de 2010, terça-feira, o Brasil parou no tempo e no espaço, suspenso nessas duas dimensões.

Escolas e colégios mandaram alunos, professores e auxiliares para casa mais cedo.

As repartições públicas ficaram desertas.

Os Correios não distribuíram mais correspondência.

Os ambulatórios dos hospitais, sem serviço, desertificaram.

As lojas dos centros comerciais correram as portas.

As grandes empresas nacionais dispensaram os empregados. As pequenas fizeram o mesmo.

Os bancos – públicos e privados – encerraram os negócios.

As seguradoras suspenderam as averiguações dos sinistros.

O comércio fechou as máquinas regitadoras.

A indústria interrompeu a produção.

Os serviços desligaram os computadores.

O Legislativo engavetou os dossiês dos projectos de lei.

O Judiciário não julgou para o resto do dia.

O Executivo esvaziou sedes de governo, ministérios e secretarias.

Enfim, o país, literalmente, parou.

A causa desta inactividade colectiva, cúmplice, de conluio de quase 200 milhões de almas, deveu-se ao facto – de magna importância para o Brasil – de ter lugar a meio da tarde um jogo de futebol entre a Coreia do Norte e o país tropical, estreia deste no campeonato mundial de futebol – aqui chamado Copa do Mundo – sediado na África do Sul.

Concentrações ululantes apinham restaurantes, cafés, botecos, clubes, dos mais sofisticados ambientes às mais reles tascas. Em casa, famílias, em raro momento de união, lotam a sala e esbracejam, opinam, vibram, fazem subir as pulsações e a pressão arterial.

O país fica hipnotizado pelos pequenos ecrãs onde passam, em alucinação máxima, as imagens vertiginosas de 22 alienados a dar tudo por tudo – incluindo a integridade física – pelo direito a pontapés numa bola.

Noventa minutos depois, em que mais ninguém vai regressar ao trabalho, pode concluir-se que o Brasil perdeu.

O Brasil perdeu, não o jogo – que esse até ganhou, o que é manifestamente indiferente para a melhoria da qualidade de vida dos Brasileiros – mas perdeu uma excelente oportunidade de produzir mais riqueza para atenuar a miséria do povo.

Doze horas depois, repesco dum jornal duas notícias:

“Brasília – Um grupo de estudantes da Universidade de Brasília (UnB) aproveitou o clima de feriado, durante o jogo do Brasil contra a Coreia do Norte, ontem à tarde, para fazer um protesto diferente na capital federal. Nus, oito alunos do curso de artes cênicas resolveram jogar futebol na Esplanada dos Ministérios (...). A líder do grupo, (...), disse que o objetivo era alertar as poucas pessoas que passavam sobre a alienação provocada pela Copa.

‘É para mostrar como o povo é ludibriado pelo futebol e para lembrar sobre o dever cívico das pessoas’, explicou a estudante (...)”.

“Nova Descoberta”

(...)

A comemoração pela vitória do Brasil na copa terminou em tiroteio, morte e duas pessoas feridas em um bar, por volta das 19 horas de ontem, em Nova Descoberta, Zona Norte do Recife. (...) houve uma discussão – ainda não se sabe por qual motivo – seguida de vários disparos. (...)”.

domingo, 13 de junho de 2010

HIPNOTIZADOS

O Brasil pintou-se de verde e amarelo.

Começou num acinzentado dia de Junho, assim, devagarzinho; foi tomando força, impulso, ânimo, audácia, colorido, e, de repente, tudo estava verde e amarelo no Brasil.

Verde e amarelo, as cores relevantes da sua bandeira, as cores com que se produz quando se quer afirmar.

Em todas as bancas de rua que vendem nesta época enfeites para o S. João, lá estão os balões de papel de todos os tamanhos, para todos os preços, verdes e amarelos.

As concessionárias de automóveis ostentam no frontispício, a emoldurar anúncios de grandes promoções, frisos compactos de balões de borracha verdes e amarelos.

Os restaurantes decoraram portas e fachadas com bandeirinhas verdes e amarelas.

E bandeiras é o que não falta por aí, das minúsculas às mais avantajadas, imensas algumas, dependuradas de janelas ou a revestir pedaços generosos de edifícios, numa monotonia cromática de verde e amarelo.

Em lojecas de ocasião, improvisadas a céu aberto, bandeiras e galhardetes partilham tabuleiros com camisetas de todos os tamanhos em verde e amarelo.

Cruzei-me com uma marafona de bordel chulo, saracoteando, a cair das ancas, um saiote de palmo, verde e amarelo.

Passam por mim dezenas de camisas de feitios variados, com emblemas, ou com números, ou com slogans, ou com tudo junto, mas sempre em verde e amarelo.

No mercado da zona mais antiga da cidade, agricultores do interior tapam-se do sol com chapéus de abas, verdes e amarelos.

Meninas exibem nos transportes públicos unhas primorosamente esmaltadas de verde e amarelo.

Estudantes carregam ciência e ignorância em gordas mochilas tingidas em verde e amarelo.

Burros puxando carroças são enfeitados com esvoaçantes fitinhas verdes e amarelas.

Um fulgor patrioteiro percorre o país.

O povo, não em armas, mas em cores, verde e amarelo, prepara-se para defender a dignidade, a honra, o bom nome, a face, perante as outras nações com a s quais disputa o heróico, o homérico, o grandioso e sublime evento quadrianual que dá pelo nome de campeonato mundial de futebol, ou, como lhe chama o Brasil, copa do mundo.

Bancos, seguros, escolas, universidades, mercadinhos e supermercados, centros comerciais, repartições públicas, tribunais, cartórios, assembleias legislativas, sedes de governo, enfim, o país, tudo vai parar à hora dos jogos em que será preciso vibrar em uníssono pelo verde e amarelo.

E, enquanto uma população de quase 200 milhões pára, embasbacada e hipnotizada, a olhar 22 alienados correrem atrás de uma bola, agredindo-se, injuriando-se, insultando-se, prosseguem tranquilamente, sem impedimentos, o desvio de dinheiros públicos, a venda de sentenças judiciais, a entrada facilitada de telefones nos presídios para controle do tráfico de drogas e de armas, os escândalos políticos, as fraudes financeiras, os gastos exuberantes sem prestação de contas, à custa dos impostos, de membros do governo e seus familiares.

Isto sem verde e amarelo, porque a corrupção, por demais esperta, não denuncia a sua cor.

domingo, 6 de junho de 2010

FICHA LIMPA

O estado de espurcícia e corrupção na política brasileira é de tal ordem que uma parte da população, cansada dos escândalos envolvendo governantes e parlamentares e seus amigos, familiares e “afilhados”, que vão da roubalheira dos cofres públicos à encomenda de homicídios de desafectos políticos, passando por toda a sorte de trapaças e malabarismos tortuosos, resolveu usar o direito constitucional de enviar ao Congresso um projecto de lei de iniciativa popular para pôr termo à depravação.

O projecto recolheu quase dois milhões de assinaturas e teve o apoio de organizações influentes na sociedade brasileira, como a Ordem dos Advogados do Brasil e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Face ao quadro de imoralidade reinante no meio político, o projecto não foi aplaudido pelos parlamentares, embora, hipocritamente, tivesse havido a preocupação de passar à sociedade uma imagem de incondicional apoio e empenho. A alguns, mais desesperados, a máscara caiu sem se darem conta. Foi o caso do líder do governo no Senado, um figurão indiciado pela Justiça por trafulhices várias no seu Estado, que alardeou para quem o quis ouvir que o projecto não era do governo e que, portanto, não havia pressa em discuti-lo em plenário.

A opinião pública pressionou e, a contragosto e apesar das tentativas de o fazer mofar nas gavetas dos gabinetes parlamentares, o projecto foi à discussão e acabou aprovado – embora não com a pureza do texto original mas no básico e necessário – pela Câmara dos deputados e pelo Senado.

Em essência, ficam proibidos de concorrer a cargos electivos os candidatos a contas com a Justiça e condenados por colectivo de juízes. Além disso, os políticos que, manhosamente, renunciarem ao cargo para evitar punições por desmandos cometidos, não ficam ilibados de responsabilidades – o que acontecia até aqui – e perderão por oito anos o direito a se recandidatarem.

Fazendo a contabilidade dos membros do Senado e da Câmara de Deputados que têm pendências nos tribunais pela prática de crimes da mais variada espécie, se conclui que muitos deles se valiam da imunidade parlamentar para cometer delitos impunemente, enquanto outros, criminosos já, conseguiram eleger-se para assim se subtraírem à acção da Justiça.

Rapidamente, pouco depois da aprovação pelo Congresso, o presidente Lula sancionou a lei.

Não deve ter sido fácil para o presidente fazê-lo. Por um lado, a nova lei, chamada “Ficha Limpa”, será um cutelo sobre o pescoço de muitos correligionários seus, implicados em malandragens várias desde que o partido do presidente – o Partido dos Trabalhadores – é Poder, e que Lula sempre acobertou. Mas, por outro, seria mal visto pela sociedade em geral o seu veto, com todas as consequências negativas, em ano de eleições, para a candidata presidencial que impingiu aos brasileiros. Impôs-se o seu pragmatismo em detrimento dos companheiros, conduta com que nunca fez cerimónia. Entre alguns apaniguados e a sua candidata, optou sem reservas por esta; não por ela, mas porque ela, a eleger-se, seria o trampolim para o seu regresso ao Poder daqui a quatro anos.

Discute-se agora se a “Ficha Limpa” vai valer já para estas eleições ou só para as próximas.

Questão de somenos.

O que importa, o fundamental são duas questões: a primeira, o exemplo pedagógico da vitória da sociedade brasileira contra a corrupção dos seus políticos e pela moralização da vida pública; a segunda, o afastamento para longe da prática política dos que visavam com ela a satisfação dos seus exclusivos interesses, ou a fuga à responsabilidade social por crimes cometidos.

Tanto num caso como noutro, valeu a pena.