É um ditado antigo: cá se fazem, cá se pagam – querendo com isto dizer que a contabilidade do universo é implacável para com todas as asneiras, incluindo as asneiras políticas.
A confirmação mais recente pode observar-se no que vem acontecendo com a candidatura de José Serra à presidência da República Federativa do Brasil, e com a de Jarbas Vasconcelos ao governo do Estado de Pernambuco, no Nordeste do mesmo país.
A forma como dois políticos de elevada (e confirmada) craveira estão a tropeçar desamparadamente (e quase desesperadamente) nas respectivas candidaturas leva-nos a pensar em como a prática política é um assunto complicado (e, por vezes, sujo), aconselhando cautelas e reflexão cuidada, por um lado, e rasgos de coragem e proactividade, por outro.
Se um curriculum só por si decidisse, José Serra já estava eleito. Homem público de fino trato, ex-ministro da Saúde, ex-ministro do Planejamento, ex-prefeito, ex-deputado, ex-senador e ex-governador da maior metrópole brasileira – São Paulo – onde já fora secretário de Economia e Planejamento, ex-candidato à presidência da República, indicado agora para a disputa pelo seu partido – Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) – escolha polémica que preteriu um correligionário que se propunha para o cargo, o ex-governador Aécio Neves, de Minas Gerais, segundo maior distrito eleitoral do país.
Serra, apoiado pelas regiões de maior riqueza econômica e financeira, parecia reunir, considerando a questão do ponto de vista teórico, condições para se sentir em confortável vantagem face à sua mais directa adversária – a arrogante, inexperiente e principiante Dilma Rousseff, ex-ministra de Minas e Energia e ex-ministra chefe da Casa Civil do actual governo, candidata que o presidente Luís Inácio Lula da Silva enfiou pela goela abaixo da maioria da militância e de grande número de quadros do seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT).
A realidade, porém, é bem outra: Dilma, calma mas firmemente, vem ultrapassando Serra nas pesquisas de intenção de voto, mesmo fora dos santuários historicamente agregados ao PT.
É verdade que o presidente Lula, despudoradamente e à margem da lei, tem vindo a fazer, de há dois anos a esta parte, alcandorado numa popularidade de 80%, a propaganda eleitoral da sua candidata.
Mas isto não explica tudo, nem é, talvez, a razão de fundo.
A disputa entre os dois candidatos do PSDB (terceiro maior partido em número de militantes e segundo no número de prefeitos em todo o país) foi acirrada, provocou brechas no partido, das bases às cúpulas, e passou para o exterior uma imagem de falta de coesão e de indecisão, já que o resultado, conflituoso, demorou a sair. Mais: o outro candidato, Aécio Neves, que chegou a encarar a hipótese de realização de prévias para que o partido no seu todo mostrasse a sua opção, preterido, acabou por se desinteressar da campanha que se avizinha, mostrando claramente a sua indisponibilidade para colaborar: rejeitou liminarmente e com veemência todas as (muitas) insistências para que aceitasse ser o vice de Serra, e vai tratar da sua própria candidatura ao Senado.
A escolha de Serra para candidato do PSDB à presidência da República foi um erro. A rejeição de Aécio Neves pelo partido foi outro, não sei se pior.
Serra será um bom técnico, um bom gestor, um bom administrador. Mas não tem carisma; é travado; é postiço; ri com a boca mas não com os olhos. Não empolga. E isso conta em campanha, em particular num país de fraca cultura política, em que grande parte do eleitorado vota pela emoção e não pela razão.
Aécio Neves fez um bom trabalho como governador de Minas, o segundo círculo eleitoral, repita-se, tem presença, tem naturalidade, tem qualidades explícitas de liderança, algum carisma e transmite a idéia de dinamismo – coisas que faltam em Serra.
Alegou-se que Aécio Neves não ganharia o pleito; Serra, previsionalmente, perdê-lo-á. Aécio Neves, mesmo perdendo agora, ganharia experiência e firmaria nome (e eleitores) para próximas eleições. Serra tem um lastro de perdas eleitorais para a presidência, e esta, pela idade, poderá ser a sua última oportunidade. Aécio Neves é jovem e representa um arejamento no partido e na política. Serra é o representante dos velhos senhores do partido.
Enquanto o presidente Lula se movia pelo país com Dilma em bandoleira, mostrando-a ao povo e dizendo, implícita ou explicitamente, “votem nela” (o que o tornou coleccionador de multas dos tribunais eleitorais, de que, aliás, se ri desavergonhadamente), Serra, aparentemente alheado do momento político, entaipado no palácio do governo de São Paulo, foi adiando, e adiando, e adiando o momento de dizer ao povo – “aqui estou, concidadãos; eu sou o cara!”. Indecisão, soberba, desinteresse, medo, tudo cabe na apreciação de tais adiamentos. Se com isso se pretendeu colher benefícios, tentando criar uma onda de desejo pelo candidato, não surtiu esse efeito. Pelo contrário, confundiu e cansou o eleitor. E Dilma ia ganhando aos pontos, isto é, aos votos.
Depois, mais um alargado compasso de espera para a decisão pelo vice. Ninguém percebeu o porquê de tanta demora, para terminar noutro erro estratégico: a escolha de um senador de dentro do partido hostilizou os principais aliados – Partido Democrata (DEM) – com quem havia acordo para que a vaga fosse deles em caso de recusa de Aécio Neves.
Os Democratas estão em pé de guerra e entalaram Serra (e o PSDB) numa camisa de onze varas. O ultimato está lançado: ou Serra renega o seu vice já escolhido e divulgado, ou os DEM retirarão o apoio na campanha – decisão a tomar dentro de poucos dias, aquando da convenção do Partido Democrata.
Tudo isto deixa no ar um cheiro de desagregação e insegurança, aproveitado por Dilma Rousseff para se afirmar – malgrado todas as insuficiências notórias que possui. E os números das pesquisas estão aí a mostrar isso mesmo.
Em próxima oportunidade falarei de Jarbas Vasconcelos e da sua candidatura ao governo do Estado de Pernambuco.
