O tema do suposto encontro entre a ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, tem proporcionado um festival de mentiras em que alguns dos participantes parecem querer disputar um Óscar de Maior Mentiroso.
Até agora, de concreto e provado apenas se sabe que as mentiras chovem, e isso pode ser assegurado sem reservas, porque as afirmações sustentadas pelos intervenientes são contraditórias. E, como nada de concludente foi apresentado ainda, não se sabe de que lado está a verdade.
No entanto, se juntarmos todas as declarações, opostas e confluentes, com os factos conhecidos através dos órgãos de comunicação social, e com bom senso, lucidez e um pouco de raciocínio, será possível a cada um tirar as suas próprias conclusões.
E a primeira questão que se coloca é: qual o interesse de Lina Vieira em mentir, o que ganharia em insistir num facto que poderia não ter acontecido?
Lina Vieira é uma funcionária pública concursada que chegou a determinado lugar na carreira por mérito próprio e não por favores partidários ou conveniências políticas. Ao contrário, as "conveniências" políticas afastaram-na do lugar. Se não fosse tida no meio como uma técnica bem qualificada e competente, por certo não lhe seria atribuída a responsabilidade de secretária da Receita Federal.
A confirmação serena mas firme que fez do encontro com Dilma não deixaram transparecer qualquer conotação política; pelo contrário, teve oportunidade de sublinhar a sua condição de especialista, apenas isso, sem ambição para exercer algum cargo político.
Os pedidos de demissão em massa feitos por muitos colegas seus, uns mais próximos, outros mais distanciados, quer geográfica, quer hierarquicamente, constituem um protesto evidente contra o seu afastamento, reconhecendo-lhe, assim, um trabalho de idoneidade, objectividade e isenção, e, ao mesmo tempo, sinalizam entender que os quadros agora nomeados, a começar pelo novo secretário da Receita, palmilharão um caminho diferente da anterior equipa, mostrando-se mais "compreensivos" para com os "interesses" do governo. Prova disto está na imediata substituição, pelo ministro da Fazenda, dos dois principais assessores de Lina Vieira, logo após o seu afastamento compulsivo do cargo de secretária da Receita Federal.
Outra pergunta pertinente: qual seria o interesse da secretária, ou chefe de gabinete, de Lina Vieira, atestando a veracidade do encontro, mesmo depois de esta ter sido demitida?
Agora, do outro lado, qual o interesse da ministra Dilma Rousseff em mentir, em negar um encontro que, eventualmente, tenha acontecido? O interesse seria, e não é de somenos, camuflar, perante a opinião pública, o empenho do governo em esconder e proteger, por razões de compadrio político, as possíveis irregularidades fiscais de empresas ligadas à família Sarney, dirigidas por Fernando, filho do presidente do Senado. Recorde-se que a ministra Dilma tem um histórico de mentiras, das quais as mais recentes dizem respeito a um curriculum escolar falso que circulava na Internet, atribuindo-lhe qualificações que não possui.
Continuando, qual seria o interesse de Erenice Guerra, braço direito de Dilma Rousseff na Casa Civil, em mentir, em negar a ocorrência de um encontro com Lina Vieira que esta garante se ter realizado? Obviamente que seria o de dar cobertura às afirmações da sua patroa.
É bom não esquecer que também Erenice tem um histórico de mentira, principalmente quando se trata de polir e preservar a imagem de Dilma. Veja-se o caso do dossiê elaborado (e negado enquanto foi possível) pela Casa Civil sobre as despesas corporativas do ex-presidente FHC.
E qual seria o interesse do presidente da República, Lula da Silva, em imiscuir-se nesse assunto, garantindo que não houve encontro nenhum? Embora por questões de decência política e estatuto nunca o devesse ter feito, a intromissão de Lula revela a preocupação do presidente em resguardar a imagem de Dilma como candidata presidencial, e em desviar os "problemas Sarney" do foco das atenções.
Por outro lado, o interesse do chefe de gabinete do presidente, Gilberto Carvalho, em mentir, se mentiu, negando também o encontro, está na necessidade de reforçar as declarações do chefe, o que, pensando bem, é um contra-senso, já que a palavra do chefe deveria ser impoluta, sem necessidade de confirmação.
As afirmações desta dupla Lula/Gilberto que mutuamente se reforçam propõem o seguinte questionamento: se já não existem as gravações de entradas e saídas no Planalto referentes às possíveis datas do presumível encontro, conforme dizem os serviços de segurança, como é que o presidente Lula e o seu chefe de gabinete podem garantir que o encontro não se efectuou? Lula e o seu chefe de gabinete controlam entradas, saídas e permanências de pessoas e veículos no palácio do Planalto? Isso faz parte das suas atribuições de Estado?
O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República assegura que os dados filmados de entradas e saídas no palácio do governo são conservados "em média em torno de 30 dias". Tal expressão, por ser demasiado dúbia, permite-nos pôr em causa o rigor da informação. Ela diz-nos, afinal, que não há um critério fixo e univalente para a conservação de imagens, o que, em termos de segurança, é um absurdo. A não ser que o "esclarecimento" seja propositadamente vago para couraçar todas as declarações, talvez mentirosas, proferidas em cascata por várias fontes "respeitáveis".
Estávamos balançando nestas dúvidas quando, inesperadamente, um canal de TV revelou os termos do contrato de licitação da empresa encarregada da segurança no Planalto. Nele se pode ler, sem equívocos, que os dados são conservados por seis meses, findos os quais transitam por tempo ilimitado para uma base de dados onde permanecerão congelados.
Ora isto, em termos de segurança, é bem mais verosímil. Na verdade, seria muito ingénuo, inocente e desinformado acreditar que a segurança institucional da presidência da República de um país com a dimensão e a importância geoestratégica do Brasil conservasse apenas por "em torno de 30 dias", "em média", os registos das entradas e saídas no palácio do governo para depois se desfazer delas como acontece com a maioria dos sonhos no fim do dia.
Se, de acordo com o contrato, os registos realmente existem mas interesses menos éticos persistem em negar essa realidade, então há-de concluir-se que houve o tal encontro entre Lina Vieira e Dilma Rousseff, confirmando os indícios e contrariando as tentativas de a dissimular.
É certo que o Senador Romero Jucá, líder do governo no Senado, veio a público dizer que os registos de seis meses se referem ao que é escrito e não ao que é filmado. Mas essa justificação desconexa e trôpega duma personagem pouco credível e de passado político nebuloso, não amparada em nenhuma linha do referido contrato, só torna mais evidente o desesperado intento de desmentir o que, de dia para dia, mais parece indesmentível.
Se alguma vez for possível confirmar esse encontro, malgrado as lavagens e depurações que os coadjuvantes da ministra Dilma têm levado a cabo, os narizes dos mentirosos, se eles fossem Pinóquios, poderiam abrigar todas as araras do hemisfério sul. Quanto às suas consciências, bom, essas já se perderam há muito, ao longo de trajectórias perversas de vida.
Até agora, de concreto e provado apenas se sabe que as mentiras chovem, e isso pode ser assegurado sem reservas, porque as afirmações sustentadas pelos intervenientes são contraditórias. E, como nada de concludente foi apresentado ainda, não se sabe de que lado está a verdade.
No entanto, se juntarmos todas as declarações, opostas e confluentes, com os factos conhecidos através dos órgãos de comunicação social, e com bom senso, lucidez e um pouco de raciocínio, será possível a cada um tirar as suas próprias conclusões.
E a primeira questão que se coloca é: qual o interesse de Lina Vieira em mentir, o que ganharia em insistir num facto que poderia não ter acontecido?
Lina Vieira é uma funcionária pública concursada que chegou a determinado lugar na carreira por mérito próprio e não por favores partidários ou conveniências políticas. Ao contrário, as "conveniências" políticas afastaram-na do lugar. Se não fosse tida no meio como uma técnica bem qualificada e competente, por certo não lhe seria atribuída a responsabilidade de secretária da Receita Federal.
A confirmação serena mas firme que fez do encontro com Dilma não deixaram transparecer qualquer conotação política; pelo contrário, teve oportunidade de sublinhar a sua condição de especialista, apenas isso, sem ambição para exercer algum cargo político.
Os pedidos de demissão em massa feitos por muitos colegas seus, uns mais próximos, outros mais distanciados, quer geográfica, quer hierarquicamente, constituem um protesto evidente contra o seu afastamento, reconhecendo-lhe, assim, um trabalho de idoneidade, objectividade e isenção, e, ao mesmo tempo, sinalizam entender que os quadros agora nomeados, a começar pelo novo secretário da Receita, palmilharão um caminho diferente da anterior equipa, mostrando-se mais "compreensivos" para com os "interesses" do governo. Prova disto está na imediata substituição, pelo ministro da Fazenda, dos dois principais assessores de Lina Vieira, logo após o seu afastamento compulsivo do cargo de secretária da Receita Federal.
Outra pergunta pertinente: qual seria o interesse da secretária, ou chefe de gabinete, de Lina Vieira, atestando a veracidade do encontro, mesmo depois de esta ter sido demitida?
Agora, do outro lado, qual o interesse da ministra Dilma Rousseff em mentir, em negar um encontro que, eventualmente, tenha acontecido? O interesse seria, e não é de somenos, camuflar, perante a opinião pública, o empenho do governo em esconder e proteger, por razões de compadrio político, as possíveis irregularidades fiscais de empresas ligadas à família Sarney, dirigidas por Fernando, filho do presidente do Senado. Recorde-se que a ministra Dilma tem um histórico de mentiras, das quais as mais recentes dizem respeito a um curriculum escolar falso que circulava na Internet, atribuindo-lhe qualificações que não possui.
Continuando, qual seria o interesse de Erenice Guerra, braço direito de Dilma Rousseff na Casa Civil, em mentir, em negar a ocorrência de um encontro com Lina Vieira que esta garante se ter realizado? Obviamente que seria o de dar cobertura às afirmações da sua patroa.
É bom não esquecer que também Erenice tem um histórico de mentira, principalmente quando se trata de polir e preservar a imagem de Dilma. Veja-se o caso do dossiê elaborado (e negado enquanto foi possível) pela Casa Civil sobre as despesas corporativas do ex-presidente FHC.
E qual seria o interesse do presidente da República, Lula da Silva, em imiscuir-se nesse assunto, garantindo que não houve encontro nenhum? Embora por questões de decência política e estatuto nunca o devesse ter feito, a intromissão de Lula revela a preocupação do presidente em resguardar a imagem de Dilma como candidata presidencial, e em desviar os "problemas Sarney" do foco das atenções.
Por outro lado, o interesse do chefe de gabinete do presidente, Gilberto Carvalho, em mentir, se mentiu, negando também o encontro, está na necessidade de reforçar as declarações do chefe, o que, pensando bem, é um contra-senso, já que a palavra do chefe deveria ser impoluta, sem necessidade de confirmação.
As afirmações desta dupla Lula/Gilberto que mutuamente se reforçam propõem o seguinte questionamento: se já não existem as gravações de entradas e saídas no Planalto referentes às possíveis datas do presumível encontro, conforme dizem os serviços de segurança, como é que o presidente Lula e o seu chefe de gabinete podem garantir que o encontro não se efectuou? Lula e o seu chefe de gabinete controlam entradas, saídas e permanências de pessoas e veículos no palácio do Planalto? Isso faz parte das suas atribuições de Estado?
O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República assegura que os dados filmados de entradas e saídas no palácio do governo são conservados "em média em torno de 30 dias". Tal expressão, por ser demasiado dúbia, permite-nos pôr em causa o rigor da informação. Ela diz-nos, afinal, que não há um critério fixo e univalente para a conservação de imagens, o que, em termos de segurança, é um absurdo. A não ser que o "esclarecimento" seja propositadamente vago para couraçar todas as declarações, talvez mentirosas, proferidas em cascata por várias fontes "respeitáveis".
Estávamos balançando nestas dúvidas quando, inesperadamente, um canal de TV revelou os termos do contrato de licitação da empresa encarregada da segurança no Planalto. Nele se pode ler, sem equívocos, que os dados são conservados por seis meses, findos os quais transitam por tempo ilimitado para uma base de dados onde permanecerão congelados.
Ora isto, em termos de segurança, é bem mais verosímil. Na verdade, seria muito ingénuo, inocente e desinformado acreditar que a segurança institucional da presidência da República de um país com a dimensão e a importância geoestratégica do Brasil conservasse apenas por "em torno de 30 dias", "em média", os registos das entradas e saídas no palácio do governo para depois se desfazer delas como acontece com a maioria dos sonhos no fim do dia.
Se, de acordo com o contrato, os registos realmente existem mas interesses menos éticos persistem em negar essa realidade, então há-de concluir-se que houve o tal encontro entre Lina Vieira e Dilma Rousseff, confirmando os indícios e contrariando as tentativas de a dissimular.
É certo que o Senador Romero Jucá, líder do governo no Senado, veio a público dizer que os registos de seis meses se referem ao que é escrito e não ao que é filmado. Mas essa justificação desconexa e trôpega duma personagem pouco credível e de passado político nebuloso, não amparada em nenhuma linha do referido contrato, só torna mais evidente o desesperado intento de desmentir o que, de dia para dia, mais parece indesmentível.
Se alguma vez for possível confirmar esse encontro, malgrado as lavagens e depurações que os coadjuvantes da ministra Dilma têm levado a cabo, os narizes dos mentirosos, se eles fossem Pinóquios, poderiam abrigar todas as araras do hemisfério sul. Quanto às suas consciências, bom, essas já se perderam há muito, ao longo de trajectórias perversas de vida.

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