À hora a que escrevo estas linhas, 15:35h do dia 15 de Junho de 2010, terça-feira, o Brasil parou no tempo e no espaço, suspenso nessas duas dimensões.
Escolas e colégios mandaram alunos, professores e auxiliares para casa mais cedo.
As repartições públicas ficaram desertas.
Os Correios não distribuíram mais correspondência.
Os ambulatórios dos hospitais, sem serviço, desertificaram.
As lojas dos centros comerciais correram as portas.
As grandes empresas nacionais dispensaram os empregados. As pequenas fizeram o mesmo.
Os bancos – públicos e privados – encerraram os negócios.
As seguradoras suspenderam as averiguações dos sinistros.
O comércio fechou as máquinas regitadoras.
A indústria interrompeu a produção.
Os serviços desligaram os computadores.
O Legislativo engavetou os dossiês dos projectos de lei.
O Judiciário não julgou para o resto do dia.
O Executivo esvaziou sedes de governo, ministérios e secretarias.
Enfim, o país, literalmente, parou.
A causa desta inactividade colectiva, cúmplice, de conluio de quase 200 milhões de almas, deveu-se ao facto – de magna importância para o Brasil – de ter lugar a meio da tarde um jogo de futebol entre a Coreia do Norte e o país tropical, estreia deste no campeonato mundial de futebol – aqui chamado Copa do Mundo – sediado na África do Sul.
Concentrações ululantes apinham restaurantes, cafés, botecos, clubes, dos mais sofisticados ambientes às mais reles tascas. Em casa, famílias, em raro momento de união, lotam a sala e esbracejam, opinam, vibram, fazem subir as pulsações e a pressão arterial.
O país fica hipnotizado pelos pequenos ecrãs onde passam, em alucinação máxima, as imagens vertiginosas de 22 alienados a dar tudo por tudo – incluindo a integridade física – pelo direito a pontapés numa bola.
Noventa minutos depois, em que mais ninguém vai regressar ao trabalho, pode concluir-se que o Brasil perdeu.
O Brasil perdeu, não o jogo – que esse até ganhou, o que é manifestamente indiferente para a melhoria da qualidade de vida dos Brasileiros – mas perdeu uma excelente oportunidade de produzir mais riqueza para atenuar a miséria do povo.
Doze horas depois, repesco dum jornal duas notícias:
“Brasília – Um grupo de estudantes da Universidade de Brasília (UnB) aproveitou o clima de feriado, durante o jogo do Brasil contra a Coreia do Norte, ontem à tarde, para fazer um protesto diferente na capital federal. Nus, oito alunos do curso de artes cênicas resolveram jogar futebol na Esplanada dos Ministérios (...). A líder do grupo, (...), disse que o objetivo era alertar as poucas pessoas que passavam sobre a alienação provocada pela Copa.
‘É para mostrar como o povo é ludibriado pelo futebol e para lembrar sobre o dever cívico das pessoas’, explicou a estudante (...)”.
“Nova Descoberta”
(...)
A comemoração pela vitória do Brasil na copa terminou em tiroteio, morte e duas pessoas feridas em um bar, por volta das 19 horas de ontem, em Nova Descoberta, Zona Norte do Recife. (...) houve uma discussão – ainda não se sabe por qual motivo – seguida de vários disparos. (...)”.

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