domingo, 13 de junho de 2010

HIPNOTIZADOS

O Brasil pintou-se de verde e amarelo.

Começou num acinzentado dia de Junho, assim, devagarzinho; foi tomando força, impulso, ânimo, audácia, colorido, e, de repente, tudo estava verde e amarelo no Brasil.

Verde e amarelo, as cores relevantes da sua bandeira, as cores com que se produz quando se quer afirmar.

Em todas as bancas de rua que vendem nesta época enfeites para o S. João, lá estão os balões de papel de todos os tamanhos, para todos os preços, verdes e amarelos.

As concessionárias de automóveis ostentam no frontispício, a emoldurar anúncios de grandes promoções, frisos compactos de balões de borracha verdes e amarelos.

Os restaurantes decoraram portas e fachadas com bandeirinhas verdes e amarelas.

E bandeiras é o que não falta por aí, das minúsculas às mais avantajadas, imensas algumas, dependuradas de janelas ou a revestir pedaços generosos de edifícios, numa monotonia cromática de verde e amarelo.

Em lojecas de ocasião, improvisadas a céu aberto, bandeiras e galhardetes partilham tabuleiros com camisetas de todos os tamanhos em verde e amarelo.

Cruzei-me com uma marafona de bordel chulo, saracoteando, a cair das ancas, um saiote de palmo, verde e amarelo.

Passam por mim dezenas de camisas de feitios variados, com emblemas, ou com números, ou com slogans, ou com tudo junto, mas sempre em verde e amarelo.

No mercado da zona mais antiga da cidade, agricultores do interior tapam-se do sol com chapéus de abas, verdes e amarelos.

Meninas exibem nos transportes públicos unhas primorosamente esmaltadas de verde e amarelo.

Estudantes carregam ciência e ignorância em gordas mochilas tingidas em verde e amarelo.

Burros puxando carroças são enfeitados com esvoaçantes fitinhas verdes e amarelas.

Um fulgor patrioteiro percorre o país.

O povo, não em armas, mas em cores, verde e amarelo, prepara-se para defender a dignidade, a honra, o bom nome, a face, perante as outras nações com a s quais disputa o heróico, o homérico, o grandioso e sublime evento quadrianual que dá pelo nome de campeonato mundial de futebol, ou, como lhe chama o Brasil, copa do mundo.

Bancos, seguros, escolas, universidades, mercadinhos e supermercados, centros comerciais, repartições públicas, tribunais, cartórios, assembleias legislativas, sedes de governo, enfim, o país, tudo vai parar à hora dos jogos em que será preciso vibrar em uníssono pelo verde e amarelo.

E, enquanto uma população de quase 200 milhões pára, embasbacada e hipnotizada, a olhar 22 alienados correrem atrás de uma bola, agredindo-se, injuriando-se, insultando-se, prosseguem tranquilamente, sem impedimentos, o desvio de dinheiros públicos, a venda de sentenças judiciais, a entrada facilitada de telefones nos presídios para controle do tráfico de drogas e de armas, os escândalos políticos, as fraudes financeiras, os gastos exuberantes sem prestação de contas, à custa dos impostos, de membros do governo e seus familiares.

Isto sem verde e amarelo, porque a corrupção, por demais esperta, não denuncia a sua cor.

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