segunda-feira, 24 de agosto de 2009

RENÚNCIA DA RENÚNCIA

É verdade que a atividade política exige de quem a pratica uma postura vertical e firme. Porém, na prática, são poucos os que não vendem a alma ao diabo, isto é, raros são os que não trocam a sua consciência por malabarismos que lhes proporcionem mordomias (ou promessas de mordomias) no imediato ou no curto prazo.
Exemplo disso é o episódio Mercadante, o mais recente capítulo da sórdida novela chamada "Senado".
Líder oficial da bancada do Partido dos Trabalhadores (PT), o Senador Aloísio Mercadante declarou publicamente, incluindo via Internet, a sua "irrevogável renúncia" à liderança do grupo, devido ao escandaloso arquivamento, por parte do Conselho de Ética do Senado, de todas as denúncias de quebra de decoro parlamentar contra o presidente da Casa, Senador José Sarney.
Contudo, um dia depois do corajoso manifesto, um Mercadante de espinha dorsal quebrada apresentou-se a um Senado vazio, indiferente a atos politicamente correto e a tudo o que não seja conta bancária e benesses, e, da tribuna, perante a residual meia dúzia de pares pouco interessados no seu drama, anunciou a renúncia da renúncia, justificando-a no resultado de um encontro que tivera com o presidente Lula pouco tempo antes. E, a dar força ao fundamento, leu uma carta que o presidente lhe escreveu após esse encontro.
Ao que se sabe, em mais uma abusiva intromissão do poder executivo no poder legislativo, contrariando a independência e a não ingerência entre os três poderes, que tanto apregoa quando lhe convém, Lula da Silva mandou chamar Mercadante para uma conversa a sós, conversa que se tornou confronto nas cinco horas que durou.
Irritado com a atitude de Mercadante face às decisões do Conselho de Ética (que, tudo leva a crer, Lula também manobrou), atitude que transtornava a defesa de Sarney que Lula obrigou o PT a fazer, o chefão deu um valente puxão de orelhas no subordinado e meteu-o na ordem.
Correndo o risco de não ter mais o apoio do PT na sua candidatura ao Senado para 2010 (e, mesmo assim, olhe lá...), Mercadante cedeu.
Por coisas assim se separam os grandes dos pequenos homens, porque é nas grandes decisões que se revelam os grandes méritos e as grandes mediocridades.
Líder que há muito nada lidera, desde que atraiu para si, aos poucos, a aversão de Lula, Mercadante vê-se agora, perante os seus correligionários, remetido à condição humilhante de peão decorativo no tabuleiro do jogo de Lula; e, diante dos eleitores, chafurda e afunda-se na risota e no descrédito.
Se o seu futuro político está comprometido, só o tempo o dirá. Tem a seu favor a memória curta do povo; contra, pesa a memória elefantina do "patrão" Lula.
A carta que o presidente lhe endereçou a seguir à conversa entre ambos, e que Mercadante, com autorização, divulgou, não denuncia nem indicia o mal-estar e a hostilidade que se gerou durante o encontro, e constitui um retalho exemplar de falsidades políticas.
Nela, Lula diz que respeita a posição do seu companheiro quanto às "duras críticas ao posicionamento da direção do PT nos processos no Conselho de Ética" e que considera um direito legítimo ele expressá-las para a militância do PT e para a sociedade. É uma falsidade na medida em que a conversa para a qual o convocou não tinha outra intenção senão ordenar-lhe que calasse a boca.
Mais abaixo, diz que Mercadante tem todo o apoio dos senadores e senadoras petistas. Pelo comportamento político desses parlamentares viu-se que não é assim. Os senadores e senadoras petistas apoiam quem a cúpula do partido designar, e a cúpula, no fundamental, é influenciada, se não mesmo guiada, por Lula.
Adiante reafirma que "a sua liderança é fundamental para as nossas lutas no Senado". É público e notório que Lula há muito decidiu retirar a liderança da bancada a Mercadante, mantendo-o apenas como uma fachada. Por outro lado, as lutas que se travam no Senado são de cada um por si na conquista ou manutenção de favores pessoais ou colaterais, sem qualquer referência à sociedade que sustenta essa Casa.
Termina a carta com um apelo veemente para que se mantenha no lugar, chamando-lhe "velho amigo". Aqui os comentários são dispensáveis.
Apesar de ter passado pelo crivo do ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, a carta no seu todo se torna uma peça ridícula para quem se lembrar – e não será preciso grande esforço – do que tem sido a escabrosa prática política nacional dos últimos anos, desde o famigerado "Mensalão".
Na verdade, as preocupações que desencadearam a raiva incontida de Lula contra as declarações de Mercadante assentam, no essencial, em cinco pilares.
Primeiro, a renúncia de Mercadante, a concretizar-se pelas razões que este apresentou ao país, transmitiria para o exterior as divisões internas do PT, uma realidade que Lula pretende ofuscar em véspera de eleições, de mais a mais quando o partido e muitas das suas figuras proeminentes se encontram atolados na corrupção espelhada em inúmeras maquinações criminosas políticas e financeiras.
Em segundo lugar, a ruptura de Mercadante com a pose da cúpula do PT quanto ao caso Sarney poria em cheque a autoridade pessoal do presidente – e Lula, tal como Dilma, é um autoritário, só que ele por vezes consegue disfarçar e ela ainda não aprendeu a fazê-lo.
Em terceiro, a averiguação imparcial das denúncias contra Sarney, defendida por Mercadante, poderia levar (quase certo levaria) à renúncia ou ao "impeachment" do velho Senador, sendo o seu lugar ocupado, ainda que temporariamente, por um parlamentar do PSDB, o que se tornaria catastrófico para os governistas.
Em quarto lugar, tal apuramento de denúncias criaria, pelo menos, um conflito com o principal aliado do governo, o PMDB, partido do Senador Sarney, e principal cúmplice com os outros parlamentares governistas para que nada se apure na CPI da Petrobrás onde, ao que parece, haverá muita coisa espúria escondida.
Finalmente, um eventual rompimento com o PMDB poria em alto risco a vitória eleitoral em 2010 de um candidato de Lula à presidência da República, que o mesmo é dizer que comprometeria de sobremaneira a própria candidatura presidencial de Lula em 2014 – um projecto que nenhum Mercadante pode atrapalhar.

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