sexta-feira, 14 de agosto de 2009

ESTÁ DIFÍCIL

O espetáculo tem sido de longa duração. Mas, se, nalguns tipos de espetáculo, a longa duração é um condimento apreciado porque prolonga o prazer dos sentidos, neste, ao contrário, provoca o mal-estar e, até, a repulsa, a náusea do espectador. É que o espetáculo é grotesco, degradante, sórdido, safado – uma insolência escarrada na cara de quem a ele assiste.
Trata-se da exibição, de triste figura, do nível a que chegaram as sessões do Senado brasileiro.
Os nobres Senadores são pagos a preço de marajá pelos contribuintes que dizem representar, contribuintes a quem, na maioria, faltam hospitais eficazmente equipados em recursos materiais e humanos; a quem, na maioria, faltam escolas competentes para o sucesso da aprendizagem; a quem, na maioria, faltam habitações condignas, da qualidade da construção ao saneamento básico; a quem, na maioria, falta a segurança diária dos seus bens e das suas vidas; a quem, na maioria, falta comida no prato.
No entanto, os nobres Senadores têm desperdiçado em disputas pessoais, alheias a qualquer ideologia ou programa político, o tempo que estes contribuintes lhes concedem.
O objetivo dos litígios é, tão-só, a conquista ou a manutenção do Poder a qualquer preço, visando as mordomias, de variadas formas, que o Poder proporciona.
Seria de esperar dessa Casa, que dá pelo nome de Senado e se pretende nobre, pensamentos, atitudes e ações nobres. Mas não: os gestos são medonhos; as posturas quase de confronto físico; os olhares assassinos; as frases, alicerçadas em palavrões ditos em surdina, transportam ódios, alguns antigos, outros recentes; os pensamentos têm por norte a troca de favores, mesmo que, para isso, seja preciso empenhar no mercado da desonra o que, porventura, reste da consciência; as ações servem para acobertar os crimes cometidos pelos parceiros de corporação.
O Senado, a nobre Casa, não está ao serviço de nobres causas. Foi aprisionado pela ganância das células purulentas que o compõem e que tendem a contaminar as poucas células sãs que subsistem (se é que as há).
Acusações veladas, denúncias expressas, insultos despudorados, vinganças que tomam o nome hipócrita de "reciprocidade", insinuações, chantagens e toda a sorte de baixezas constituem o cenário em que se tecem as intrigas que garantem o enriquecimento rápido e a distribuição de privilégios ilícitos entre familiares, amigos e afilhados políticos dos nobres Senadores.
Para aumentar a desordem, o presidente da República, Lula da Silva, interfere diretamente na bancada do seu Partido, ordenando tomadas de posição e desautorizando líderes publicamente.
No meio do caos, alguns vestígios de lucidez sugerem que se encerre definitivamente o Senado, já que constitui uma avultada despesa sem retorno e uma fonte de maus exemplos e um centro de violação impune da Ética.
É certo que os escândalos políticos não são de agora nem se circunscrevem ao senado. Câmara dos Deputados, Conselhos de Ética, legislativos estaduais, municípios têm um histórico deplorável de alienação do serviço público em proveito pessoal de muitos dos seus integrantes. Mas o Senado é o mais recente e, talvez, o mais ostensivo protagonista de descomedimentos no panorama político nacional, mercê do comportamento indecoroso dos parlamentares que dele fazem parte.
O remédio para tal situação não pode buscar-se no próprio Senado, conspurcado como está, e só pode ter origem numa única fonte: o voto. Mas, para isso, seria necessário ultrapassar três obstáculos de peso: o ainda elevado índice de analfabetismo no país, em particular do analfabetismo funcional; a memória curta do eleitor que, associada a uma formação política pouco desenvolvida e a um deficiente sentido de análise crítica, o leva a votar mais por emoção do que por razão; o bolsa-família e outros programas de assistencialismo primário que visam (e conseguem) comprar votos.
E, como não se vislumbram no horizonte próximo possíveis alterações a estes fatores, como diria um amigo nordestino, "a coisa assim está difícil"...

Sem comentários: