quinta-feira, 8 de julho de 2010

CÁ SE FAZEM, CÁ SE PAGAM 3

Se a candidatura de José Serra à presidência da República Federativa do Brasil está estremecida, a de Jarbas Vasconcelos ao governo do Estado de Pernambuco não o está menos.

A esta hora, talvez Jarbas já se tenha perguntado várias vezes se não teria sido melhor terminar condignamente o mandato de senador, e preparar-se para sair da política pela porta grande, deixando aos eleitores a lembrança de um vencedor.

No seu curriculum constam os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador, duas vezes governador do Estado de Pernambuco e duas vezes prefeito da sua capital – Recife.

Com a experiência acumulada ao longo de tal carreira, o que faz abalar a sua candidatura? Talvez não tanto uma hipotética sobrepujança da candidatura adversária – do actual governador que se recandidata, Eduardo Campos, do PSB (Partido Socialista Brasileiro) – mas, principalmente, os acidentes de percurso decorrentes duma preparação desastrosa da candidatura jarbista.

1. Jarbas Vasconcelos disse várias vezes – e publicamente – que não queria candidatar-se ao governo de Pernambuco. Talvez por cansaço, talvez pela previsível ferocidade da disputa, talvez por outra razão qualquer que só a ele dirá respeito. Mas disse-o, e isso não incute grande confiança nos eleitores nem os agarra. A falta de entusiasmo inicial contagia o eleitorado – que, já de si e na generalidade, parece não ter grandes razões de queixa de Eduardo Campos.

2. Depois de muito e continuamente pressionado por alguns partidos constituídos em base aliada, em particular pelo PSDB, Jarbas foi alimentando na opinião pública um chove não molha, nem sim nem sopas, arrastado pelo tempo suficiente para começar a enfastiar os eleitores. Foi demasiado tardia a comunicação a comunicação ao povo da sua decisão de se candidatar mais uma vez ao governo do Estado. Tardia e sem alma, apagada.

3. Jarbas Vasconcelos é um dos fundadores do MDB, actual PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), ao qual se tem mantido fiel. No entanto, é seu dissidente e já o acusou, por diversas vezes, de ser um antro de corrupção. Não bastasse isto para que a maioria do PMDB não o suportasse, o partido, o maior do Brasil, decidiu apoiar à presidência da República a candidata Dilma Rousseff, imposta pelo presidente Lula, padrinho político de Eduardo Campos.

4. Além deste revés, os partidos da base aliada de Jarbas Vasconcelos têm profundas divergências em alguns círculos eleitorais do país, não formando um bloco coeso e homogéneo.

5. Jarbas foi “empurrado” pelo PSDB para aceitar a candidatura, de modo a que o Estado de Pernambuco, tradicionalmente afecto ao presidente Lula da Silva, pudesse ter um enclave para a propaganda da candidatura à presidência de José Serra, do mesmo PSDB. E Jarbas submeteu-se ao “empurrão”, convicto de que poderia contar na sua lista com os nomes que em tempos compuseram a lista vencedora, por ele encabeçada, da candidatura ao governo do Estado. Mas aí vários contratempos aconteceram.

- A principal figura com que Jarbas contava, o senador Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB, tirou-lhe o tapete e não se recandidatou ao Senado.

- A substituição de Sérgio Guerra como senador na lista de Jarbas foi demorada, tomando ares de novela contada aos bocadinhos. Vários nomes do PSDB convidados recusaram publicamente de modo peremptório.

- Aceitou a função, tarde e a más horas, um membro doutro partido, muito tempo depois de ele próprio ter negado, por diversas vezes e de forma convincente, que aceitaria. Em breve a imprensa noticiava que o seu segundo suplente estava na lista dos inelegíveis do TCE (Tribunal de Contas do Estado) por supostas irregularidades em anteriores cargos públicos.

- A indicação do nome da vice-governadora foi tirado a ferros, quase em cima da convenção que oficializou a candidatura.

- No meio disto tudo, Sérgio Guerra, o maior “empurrador” de Jarbas Vasconcelos, furtou-se sempre a comparecer aos eventos da candidatura, sob o pretexto de que estaria muito atarefado na organização da candidatura presidencial de José Serra.

Com tal cenário, rico em tramóias, indecisões, pressões, recusas, aquiescências forçadas, a candidatura de Jarbas Vasconcelos não prima pelo fulgor. O seu objectivo não parece ser a conquista do governo do Estado, mas tão-só conseguir um palanque de propaganda para José Serra.

Uma candidatura que não crê na vitória (ou que não quer a vitória) não pode sair vencedora.

Jarbas Vasconcelos merecia um fim melhor – e o PSDB de Sérgio Guerra (ou o Sérgio Guerra do PSDB) devia-lhe isso.

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