sábado, 4 de setembro de 2010

O LIMITE É A MORTE

Brasil, sec. XXI.

Uma jovem acabada de sair da adolescência planeia o assassinato dos pais, um engenheiro e uma psiquiatra, para antecipar a tomada de posse da herança. Durante a noite abre a porta aos assassinos (o namorado e um amigo), e os pais são mortos a pauladas na cama.

Rapaz escapa de homicídio premeditado pelo pai e pelo irmão que queriam apoderar-se da fortuna que ele ganhara num jogo semanal do tipo lotaria.

O chorudo prémio obtido num jogo semelhante por um deficiente de cadeira de rodas foi o motivo para a morte encomendada pela mulher e perpetrada por um amante dela e um guarda-costas dele.

Professor universitário é atraído a uma cilada pela mulher de quem estava separado há quatro anos mas não divorciado. Dois assassinos contratados – um segurança dela e um amante de brinquedo, arranjado para o efeito, a quem ela pretendia silenciar definitivamente a seguir ao crime – esfaquearam-no na garagem da mulher; ela deu-lhe um tiro para confirmar a morte. Motivo: uma gorda pensão vitalícia e um atraente seguro de vida que a mulher o convencera a constituir.

Fora os casos não divulgados, a lista é interminável, e inclui os que ainda se encontram em investigação e têm o mesmo móbil – dinheiro.

Por dinheiro, o limite é a morte.

Morte encomendada, morte participada, morte executada.

No Brasil, a vida não tem valor. Como se se tratasse de algum lote de acções de uma empresa falida, a vida do outro é lixo, e assim é tratada quando esse outro se interpõe e interfere com interesses gananciosos imediatos.

A morte por assassinato banalizou-se. Entrou na rotina diária do cidadão, e este já nem sequer se espanta e muito menos se questiona.

Quando lhe toca pela porta, a princípio desespera-se, chora e revolta-se; depois, enterra os seus mortos, e a vida continua, povoada de mais homicídios (que nos últimos 15 anos aumentaram 32%).

Não parece ser entre as classes menos favorecidas que os crimes por dinheiro se manifestam prioritariamente. Pelo contrário, nas classes médias e abastadas, onde o dinheiro e bens correspondentes correm mais soltos e em maior quantidade, a avidez e a cobiça geram ambições desmedidas e acções torpes com redobrada frequência.

Valores universais – como o da preservação da vida – caíram em desuso, e tudo vale para satisfazer desejos de cada vez maior riqueza material, seja qual for o meio para o conseguir.

A Moral e a Ética foram relegadas para o baú das velharias inúteis. Pior: foram rotuladas de “empecilho” para a consecução de objectivos canalhas.

Esta ausência de moral e de ética nos relacionamentos interpessoais (e intrapessoais também) será a responsável por uma prática política notoriamente cada vez mais desviada de princípios morais e éticos? Ou, pelo contrário, é a política praticada sem moral e sem ética que tem induzido nas pessoas, por imitação, comportamentos amorais e antiéticos?

É provável que ambas as coisas se influenciem mutuamente.

Um indivíduo sem escrúpulos procurará na política um escudo de impunidade contra as condutas ilícitas e criminosas que planeia. Como é óbvio, tal esquema mental vai reflectir-se na condução dos negócios públicos – que passarão a ser privados.

Por outro lado, os políticos estão no foco dos cidadãos, em particular no que toca às malfeitorias que cometem, quando são descobertos. E o que constata a população? Que dos mais elevados aos mais baixos escalões dos quadros políticos impera a patifaria sem punição, muitas vezes menosprezada nos discursos oficiais como se de coisa sem importância se tratasse – e, o que é mais grave ainda, com a conivência e a cobertura, senão mesmo com a participação e o envolvimento de figuras do poder judicial.

Perante sucessivos e evidentes escândalos de políticos implicados e comprovadamente comprometidos com delitos gravosos contra o património público e contra terceiros, e perante sucessivos e evidentes escândalos de absolvição de tais delitos, cria-se uma atmosfera colectiva de imunidade e de indiferença perante a perversidade, presidida pelo convencimento de que o crime compensa – porque, neste desregramento, bastas vezes o crime tem a aparência de compensatório.

A percepção da realidade fica, assim, embotada e distorcida. As acções não são já norteadas por valores, mas por objectivos pérfidos. A reflexão é substituída por um imediatismo primário. Os anseios legítimos dão lugar a ambições espúrias. O discernimento afunda-se na insânia – e o limite é a morte.

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