quinta-feira, 12 de novembro de 2009

UM PRÉMIO EQUIVOCADO

Quando o químico Alfred Nobel expressou em testamento a intenção de criar os prémios que hoje levam o seu nome (química, física, medicina, literatura e paz mundial – o de economia nunca foi sugerido por ele) fê-lo no pressuposto de que contemplariam pessoas ou entidades que, durante o ano, se teriam destacado na investigação científica, no desenvolvimento tecnológico ou no incremento de acções de carácter social.
À semelhança de outras organizações internacionais que, com o correr dos anos, se deixaram corromper pela hipocrisia rasteira, a mentira descarada e o oportunismo grosseiro, também o Prémio Nobel desvirtuou os seus princípios e objectivos iniciais. Foi assim que pelo menos o prémio da Literatura e, de modo particular, o da Paz se tornaram instrumentos de cunho eminentemente político.
Um exemplo acabado disto foi a atribuição do Prémio Nobel da Paz de 2009 ao presidente dos EUA, Barack Obama, que, ele próprio constrangido, disse que encaminharia o montante do prémio para instituições de caridade.
Um prémio é um reconhecimento por algo que se fez. E a verdade é que Obama, no tema em apreço, nada fez que justificasse o galardão. Pelo contrário: sustenta uma guerra no Iraque, outra no Afeganistão, para onde pensa enviar mais 30 ou 40 mil soldados, e está a provocar, de forma crescente, a instabilidade no Paquistão por via dessas guerras.
Algumas críticas mundiais ao facto levaram a comissão Nobel a emitir, com alguma timidez, a justificação ridícula, quase hilariante, de que se tratava de uma recompensa por intenções que o presidente declarara. Ora, intenções nada são até à sua passagem ao acto e, muitas delas, por maior que seja o empenho, nem sempre se concretizam, ou, a materializarem-se, ainda que com os melhores propósitos, podem não atingir os objectivos para que foram pensadas.
Portanto, parece legítimo concluir-se que o Prémio Nobel da Paz atribuído este ano ao presidente Barack Obama não representou propriamente um prémio, mas, antes, um incentivo. Então, se assim foi, um incentivo a quê?
Deveria supor-se, logicamente, que seria um incentivo à paz. Mas tal hipótese terá de ser rejeitada face às circunstâncias e à realidade.
Quem votou em Obama, ou torceu por ele pelo mundo fora, na expectativa de que os militares americanos regressariam de imediato a casa, já percebeu – e deveria ter percebido antes – que isso é irrealista. As guerras não se acabam com a facilidade com que se começam, e no Médio Oriente há demasiadas coisas em jogo de suma importância para que se possa encarar uma retirada dos americanos da região, pelo menos nos tempos mais próximos: o aliado israelita, testa de ferro na conturbada área, cercado por árabes radicais que não escondem o desejo de o apagar do mapa, as alianças de rumo imprevisível mas que vão garantindo, ainda, algum equilíbrio, mesmo que frágil, o Irão, obcecado pelo fomento de um programa nuclear, e, a pairar sobre tudo isto e a condicionar tudo isto, o petróleo, o petróleo, o petróleo.
Vista a situação nestes termos, ninguém acordado, com os pés na terra e de bom senso duvidará, por certo, de que uma súbita saída das tropas americanas do Médio Oriente acarretaria, a breve trecho, consequências mundiais imprevisíveis – mas, seguramente, nefastas e de improvável contenção, quer pelos meios diplomáticos, quer pelos bélicos convencionais, até pelo envolvimento de outras potências que seriam arrastadas para o conflito.
É ingénuo pensar que a comissão Nobel desconhece este cenário. Logo, será permitido inferir que o "prémio" não pretendeu ser um incentivo à paz, já que ela se tornaria na região, e no mundo, por efeito cascata, catastrófica, mas, ao contrário, um incentivo à guerra, pois é ela que, ao concentrar e polarizar num local restrito um conjunto de práticas militares de grande envergadura, permite uma relativa pacificação noutras zonas sensíveis do planeta.
Do ponto de vista de estratégia económica, política e militar, tudo isto poderá ser compreensível, embora com alguma repugnância por parte de mentes mais voltadas para outros valores.
Agora, o que parece inacreditável é o absurdo de se pensar que poderá ter sido atribuído um Prémio da Paz como estímulo a perpetuar a guerra.
A verdade, porém, é que, no momento actual da História do Homem, já poucos absurdos são espantosos ou inacreditáveis – para o melhor (se o há) e para o pior de todos nós.

1 comentário:

Anónimo disse...

concordo plenamente , se nao é propaganda politica sera uma mera coincidencia ele ser estreado no ano de eleiçoes???

adorei o blog me siga tb rs!