"Lula, o filho do Brasil" é mais uma e a mais recente peça de eleitorite levada a cabo no Brasil pelos galanteadores da situação, ao arrepio da Lei Eleitoral, que não abriu ainda o período de campanha, e perante o estranho (pelo menos isso) silêncio das autoridades competentes.
Trata-se de uma longa metragem (cerca de 2,5 horas) que pretende biografar a vida do actual presidente da república do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, desde o nascimento até à ascensão a líder sindical, mas de que foram convenientemente retirados alguns factos negros, quer da sua vida privada, quer da política.
Realizado por Fábio Barreto - candidato a um Óscar de melhor filme estrangeiro por outro trabalho - sobre o livro homónimo de Denise Paraná, uma ex-assessora de Lula, o filme conta com um orçamento de 31,6 milhões de Reais (1 Real vale hoje, aproximadamente, 2,6 Euros), verba considerada excessiva nos meios cinematográficos brasileiros; mas grandes empreiteiras e alguns mega bancos não hesitaram em subsidiá-lo.
Previsto para entrar nos circuitos comerciais de todo o continente sul-americano - os homens do marketing não fazem a coisa por menos - no início de 2010, tem várias ante-estreias marcadas, uma das quais já se realizou ontem em Brasília, talvez para aquilatar do impacto que possa ter junto do público.
O próximo ano, 2010, será ano de eleições presidenciais. E, ainda que a Lula da Silva, agora no segundo mandato, não seja permitido, constitucionalmente, avançar com nova candidatura (embora se tenha esboçado, sem êxito, um movimento nesse sentido), ele pretende fazer eleger uma candidata do seu partido, a ministra da Casa Civil e ex-ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff, que abriria espaço para uma recandidatura sua em 2014.
O filme seria, pois, uma tentativa de induzir nos eleitores - em particular nos menos esclarecidos - uma disposição de transferência de votos para Dilma e, no futuro, para Lula.
O realizador veio a público dizer, cinicamente, que os filmes não ganham votos nem eleições e que o filme, este filme, é apenas emoção. Não é um filme eleitoral mas emocional, disse ele.
Ora, a questão é, precisamente, essa, o emocional.
Um filme construído para ser visto por cerca de 20 milhões de brasileiros, todos eles munidos de caixas de lenços de papel (a obra, ao que parece, pretende fazer chorar até as pedras da calçada), e expurgado do que poderia ser nocivo à imagem de Lula, é um filme eleitoral, sim. Porque num país de grande índice de analfabetismo, real e funcional, de escasso espírito crítico, de reduzida formação política, e onde a miséria troca votos por programas de assistência directa, como o Bolsa-Família, o voto não é fruto de uma reflexão consciente e cuidada, mas sim de uma emoção primária e imediata.
O filme busca, na verdade, objectivos eleitorais. Dizer o contrário é mentir e menosprezar as inteligências.
Porquê apresentá-lo em ano de eleições? Porquê não esperar por 2011 para então, depois dos resultados eleitorais, o difundir? A decência, o decoro e a honestidade, se existissem no poder instalado, seria isso que aconselhariam.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
O FILME DA MENTIRA
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